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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Professores de jazz do ESMAE escolheram música de Kenny Wheeler para o concerto anual

Para o concerto anual dos professores de jazz da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE), foi escolhida a música de Kenny Wheeler. O interesse no evento lotou o Teatro Helena Sá e Costa no passado dia 19 de abril.

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Os professores de Jazz da ESMAE, subiram ao palco do Teatro Helena Sá e Costa, no passado dia 19 de abril (sexta-feira), no Porto, para apresentarem reportório do compositor e trompetista canadense Kenny Wheeler.

Voz: Fátima Serro; Trompete: Ricardo Formoso; Saxofones: Mário Santos; Trombone: Paulo Perfeito; Vibrafone: Jeffery Davis; Guitarra: Eurico Costa; Piano: Hugo Raro e Daniel Bernardes; Contrabaixo: José Carlos Barbosa e Bateria: Marcos Cavaleiro e Acácio Salero. Onze músicos em palco.

Nascido em Toronto no ano de 1930, mas radicado na Inglaterra desde 1952, Kenny Wheeler foi no final dos anos 1960 uma figura altamente conceituada na cena londrina. O trompete e flugelhorn, são os instrumentos de eleição que fazem parte integrante na sua música, principalmente nas pequenas formações, onde a voz de Norma Winstone se encaixa perfeitamente nos arranjos musicais.

Influenciado por Clifford Brown e Art Farmer, conseguiu criar uma extensão estilística que desde logo o demarcou dos demais. Sempre muito bem acompanhado por grandes músicos: John Stevens, Evan Parker, Dave Holland e Derek Bailey, entre outros.

Segundo as suas palavras, “o material livre relaxou a minha forma de tocar convencional e a forma de tocar convencional deu forma aos meus solos livres”, e as ideias descobertas na improvisação, especialmente o gosto pelos saltos intervalados, foram posteriormente implementadas nas suas peças. Podemos citar ainda Duke Ellington, Gil Evans e Stan Kenton como influências formativas na sua escrita musical, mas também ouviu atentamente composições clássicas e contemporâneas; Paul Hindemith foi outra influência importante.

O tema “Everybody Song But My Own”, com todo o ensemble, revelou grandes solos de vibrafone de Jeffery Davis, e de contrabaixo de José Carlos Barbosa e Fátima Serro, a mostrar a sua versatilidade vocal num bonito solo de voz. Mário Santos, o eterno irreverente, a fazer ouvir o seu potente sax tenor.

O momento intimista da noite chegou-nos com o tema “For Jam”, com uma formação inusitada. Voz, sax soprano, vibrafone e contrabaixo. Excelente momento musical, alegrou a alma do público  numa sala lotada.

Em “Gentle Peace” ouviu-se uma sonoridade díspar… O uníssono da voz e do flugel, funcionou muito bem. O trombone e o sax esperaram, e só mais tarde se juntaram ao grupo. Mais uma vez, a voz como instrumento de sopro, num encadeamento harmónico e tímbrico notáveis. As notas do contrabaixo longas e “cheias”, a lembrar Charlie Haden, e a guitarra de Eurico Costa fez o seu segundo solo da noite, um solo cheio de expressão e intensidade. Ouvimos um solo de vibrafone que pelo entusiasmo das baquetas , atrevo-me a apelidá-lo de “indomável”.

O penúltimo tema “One, Two, Three”, traz-nos outro duo na exposição, a voz desta vez, escolheu o trombone para seu cúmplice. O contrabaixo fez um solo pujante, o piano de Daniel Bernardes, atreveu-se num solo a duas mãos em uníssono. O trombone, ansioso por fazer ouvir a sua voz, presenteou-nos com um solo, onde as notas certas, estiveram sempre nos tempos certos.

Para encerrar em beleza esta grande noite de jazz, foi escolhido o tema “Fox Trot”. Se é Foz Trot, tem que haver solo de bateria! Mas antes tivemos um excelente solo de sax tenor, sempre a fugir do microfone, mas nunca a “fugir” da alma que o toca. Não me esqueci da bateria, pois o final do tema foi todo dela!

E os onze professores, alinharam-se na frente do palco, para agradecer as palmas. Ricardo Formoso, desempenhou o papel de Kenny Wheeler. Não só pela sonoridade doce e “contida”, como pelo seu fraseado limpo, fluente e expressivo. Marcos Cavaleiro, um baterista com grande pessoalidade e Hugo Raro, um pianista que desde cedo escolheu outros caminhos musicais e conseguiu manter sempre o seu cunho pessoal, a sua marca.

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Comentário de António Ferro

Poderiam ter arranjado um músico de acesso mais fácil, não quero dizer que a música de Wheeler seja difícil, porque não é. É uma música dócil, serena, onde a dissonância é extremamente bem conseguida, está lá, mas não na primeira fila…A presença da voz, como mais um instrumento de naipe, cria uma sonoridade diferente e muito agradável, a recordar a inclusão de Norma Winstone nos arranjos de Wheeler. Parabéns à Fátima, pois esteve muito bem, com saltos melódicos difíceis e com a “metalada” a tentar abafar a sua linha melódica, mas não por maldade , pois a intensidade de alguns instrumento é difícil de diminuir.

Gostei das escolhas dos solos em relação aos temas. Já não suporto, aquela “herança” do Be-Bop, todos têm que solar em todos os temas. Os arranjos musicais, na sua maioria, foram escritos por Ricardo Formoso, Mário Santos, Acácio Salero, Eurico Costa e José Carlos Barbosa.
Uma noite muito agradável, com uma música intensa, elegante, graciosa, imoderada e arrebatadora.

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