Presidenciais: Candidatos à altura… do cartaz!

Portugal entra em 2026, ano de eleições presidenciais com a mesma solenidade de um desfile de moda fora de época. Os candidatos avançam, um a um, com o ar grave, discursos treinados e as palavras tão gastas que já não significam rigorosamente nada. “Experiência”, “esperança”, “equilíbrio”, “coragem”. O léxico é curto, repetitivo e seguro.
Pensar dá riscos.
Repetir dá votos.

A Presidência da República, esse cargo que deveria exigir silêncio, densidade e sentido de Estado, foi convertida num exercício de marketing político de baixo risco. Cada candidato apresenta-se como um produto neutro, sem arestas, sem conflito, sem o pensamento que possa incomodar alguém. Não se vendem ideias — vendem-se sensações.

O eleitor é tratado como alguém que escolhe um vinho pelo rótulo. Importa a pose, o tom de voz, o enquadramento fotográfico. O conteúdo? Esse é opcional. Fala-se do país como quem fala do tempo: com generalidades simpáticas e nenhuma consequência prática. O país real — complexo, desigual, cansado — não cabe neste guião publicitário.

Os debates parecem exercícios de ginástica verbal: muito movimento, e pouco avanço. Evitam-se os temas concretos para não criar clivagens. Evitam-se as posições claras para não perder os apoios. Evita-se o pensamento profundo porque dá trabalho e não encaixa nos trinta segundos de televisão. O resultado é uma campanha higiénica, asséptica e politicamente anémica.

Entretanto, a Justiça continua lenta, a habitação inacessível, o trabalho precário normalizado, os serviços públicos a desmoronar-se por dentro. Mas isso são apenas meros detalhes incómodos, difíceis de transformar num slogan competitivo. É muito melhor falar de “valores” — essa palavra elástica que serve para tudo como um detergente multiusos e que não obriga a nada.

Há algo cómico neste espectáculo: os candidatos falam da República como se isso fosse uma ideia abstrata, desligada da vida concreta das pessoas. Como se o cargo fosse um símbolo honorífico e não uma responsabilidade histórica. Belém surge como um destino turístico para uma carreira longa, não como um lugar de exigência moral.
Não estamos perante um confronto de visões para o país. Estamos perante uma competição de compostura. Quem parece mais calmo, mais razoável, mais “presidenciável”. É triste ver a política reduzida a etiqueta. A democracia transformada num exercício de boas maneiras.

Depois do excesso das festas, do consumo, do ruído e das ilusões reconfortantes, talvez seja o tempo de desligar a música e acender a luz. Olhar para este desfile e perguntar, sem romantismos: isto basta-nos?

A Presidência da República não é um adereço nem um prémio de consolação institucional. Se aceitarmos o vazio embrulhado em frases bonitas, não nos podemos queixar quando o vazio governar. Pensar antes de votar é incómodo, dá trabalho e não cabe num slogan — mas é a única coisa que ainda distingue um cidadão de um figurante.