O Porto volta a encher-se de Orgulho na 20.ª Marcha LGBTI+

O coração do Porto bateu este sábado com mais cor, mais som e mais coragem. A 20.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ voltou a percorrer artérias centrais da cidade, numa expressão clara de que existir é já, em si, um ato político — e resistir, um dever que se renova a cada passo.

Com concentração marcada para as 15:00, na Avenida dos Aliados, a marcha avançou por vias como a Rua Gonçalo Cristóvão, Praça da República, Rua da Boavista, Cedofeita, Carlos Alberto e Rua do Carmo, até chegar ao Largo Amor de Perdição. Ali, o espaço transformou-se num ponto de celebração e encontro, ainda que este ano sem o habitual Arraial + Orgulhoso, cancelado por falta de apoio institucional.

Apesar do cancelamento do arraial, a marcha seguiu inabalável, impulsionada por palavras de ordem, batidas de percussão, cartazes caseiros e leques abertos ao alto — símbolo Queer resgatado da história, da performance e da resistência. A própria organização incentivou este gesto como resposta coletiva e visível à ausência de apoios e ao recrudescimento de discursos de ódio. Bater leque, nesta edição, tornou-se um sinal de presença.

O lema escolhido — “Direito a existir, dever de resistir” — marcou o tom da jornada. Ao longo do percurso, entre bandeiras arco-íris e faixas com identidades diversas, multiplicaram-se frases como “Viver não é só respirar”, “Antes fufa que fascista” ou “O amor não precisa da tua permissão”. Eram gritos, mas também confissões — testemunhos da urgência de quem recusa o silêncio.

Muitos participantes partilharam a sensação de que a marcha deste ano tem um peso simbólico particular. O contexto atual, com a escalada de narrativas de extrema-direita e o crescimento do discurso anti-LGBTI+ nos espaços digitais e políticos, tornou mais evidente a importância de ocupar o espaço público. O regresso a estas ruas é, para muitas pessoas, um gesto de sobrevivência e de solidariedade com quem não pode estar.
Sentia-se, entre manifestantes, uma consciência clara de que não basta comemorar: é preciso denunciar. Denunciar os retrocessos, as ameaças, a invisibilização, a pressão para que o afeto Queer seja empurrado para a esfera privada. A presença nas ruas, afirmaram, é também uma recusa à ideia de que estas identidades devam ser escondidas ou toleradas apenas em silêncio.

Nas palavras não ditas, mas repetidas em cartolinas e vozes cantadas, era possível identificar também um chamamento à escuta. Muitos ali desejavam que quem ainda vê estas lutas com preconceito pudesse testemunhar a diversidade real das pessoas presentes. Que percebessem que por trás de cada cartaz está alguém que quer amar, viver, trabalhar e existir com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa.
A ausência de apoio da autarquia e o aumento drástico dos custos de policiamento — sete vezes superiores aos valores de 2022 — foram também temas presentes. A organização alertou, ao longo das últimas semanas, para a desigualdade na forma como os eventos comunitários LGBTI+ são tratados face a outras iniciativas na cidade. A comunidade recusou, no entanto, deixar que o cancelamento do arraial silenciasse o resto. A resposta foi clara: “Canceladas, sim. Silenciadas, nunca.”
A marcha voltou a afirmar-se como espaço plural e interseccional. Estavam ali pessoas trans, não-binárias, cisgénero, com ou sem deficiência, crianças com as suas famílias, idosos, imigrantes, ativistas de causas ambientais, pessoas racializadas, artistas, estudantes, trabalhadores. Toda essa mistura deu corpo a uma convicção central: o orgulho é coletivo e não há liberdade individual que não dependa do bem-estar comum.

No mês em que se assinalam 55 anos da revolta de Stonewall, momento fundador do movimento LGBTI+ moderno, a Marcha do Porto reforçou que não se trata apenas de recordar. Trata-se de continuar. E de continuar com alegria, mas também com firmeza. Com festa, mas com consciência política. Com amor, mas sem concessões.
Ao fim da tarde, entre cânticos como “Nem menos, nem mais, direitos iguais” e “A nossa luta é todo o dia”, o Porto mostrou mais uma vez que a cidade resiste — com cravos, com leques, com glitter e com memória. E que 20 anos depois da primeira marcha, a luta está longe de terminar.

Saiba que…
-
-
- A Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto realiza-se desde 2005, e assinala este ano duas décadas de existência.
- O Dia Internacional do Orgulho celebra-se a 28 de junho, em memória da revolta de Stonewall, em 1969, nos EUA.
- O cancelamento do arraial foi motivado pelo aumento dos custos de policiamento, associados a “ameaças e vulnerabilidades” atribuídas pelas autoridades.
-
OC/RPC/IR