Porto | Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu é Património Cultural Imaterial

O Património Cultural, IP aprovou o registo da manifestação “Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), conforme Despacho de 2 de junho de 2026 assinado pelo Presidente do Conselho Diretivo, João Soalheiro, e publicado hoje em Diário da República.
Com este procedimento, o Património Cultural, IP reconhece a relevância desta manifestação na atual matriz identitária da comunidade envolvida, a importância histórica no território em que se insere e a sua influência social, cultural e artística, bem como as dinâmicas de transmissão de práticas e saberes desenvolvidas ao longo de gerações entre os detentores dos conhecimentos associados.

O Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu realiza-se a 24 de agosto (festa litúrgica do Apóstolo), no penúltimo domingo de agosto ou no domingo mais próximo do dia canónico deste Santo. Anualmente as ruas da Foz do Douro, paralelas à orla marítima, são ocupadas por uma multidão de pessoas que assistem à passagem do Cortejo. Participam perto de 500 figurantes, envergando trajes de papel e acessórios que aludem à História, Cultura e Tradições de Portugal. Têm como destino a praia do Ourigo e o mergulho final nas águas do mar.
O ritmo é marcado por instrumentos tocados pela Banda Marcial da Foz do Douro, Associação Recreativa “Os Pauliteiros de Nevogilde” e Batucada Radical. Movimentos, texturas, cores e sons materializam esta prática cultural ímpar, realizada pela comunidade e para a comunidade. Ativa desde a década de 1930, esta manifestação é atualmente levada a cabo por várias Coletividades Culturais, Desportivas e Recreativas do território da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.
De acordo com a tradição, a 24 de agosto São Bartolomeu solta o diabo agrilhoado, encarna nas águas regeneradoras do Atlântico e o Banho Santo vale por múltiplos de três ou sete, uma conta que assusta e afugenta o diabo. Incluído no grupo dos Doze escolhidos por Jesus, São Bartolomeu recebeu do Mestre a autoridade para aterrorizar demónios, o que o converteu num santo exorcista. O poder de repelir o mal, proteger as crianças do medo e gaguez, afastar tempestades, trovoadas e granizo e curar doenças, em particular as de pele, explicam o fervor religioso conquistado pelo Apóstolo no mundo cristão.
A devoção a São Bartolomeu na Foz do Douro remonta seguramente à Época Moderna, ocorrendo em paralelo com a da Senhora da Luz. A partir de finais do século XIX, os festejos em honra do Apóstolo cruzam-se com a Festa do Banheiro, uma iniciativa de natureza lúdica que encerrava a festa balnear. Testemunhas locais recordam grupos de banheiros e banhistas que se vestiam com roupas feitas de papel.
Encenavam brincadeiras nas praias e mergulhavam depois no mar. Relatos orais atribuem a origem desta prática ao Banheiro Costa Padeiro, antigo embarcadiço que, inspirado no ritual da travessia da linha imaginária do Equador (que ocorria nos paquetes que cruzavam o Atlântico), deu início aos mergulhos em trajes de papel. Nos últimos setenta anos, o número de figurantes cresceu e diversificou-se.
Os trajes de papel são confecionados nas sedes das coletividades envolvidas, em contexto pós-laboral e durante o fim de semana. Nos trabalhos participam os membros das associações, familiares, amigos e vizinhos. O voluntariado está aberto a todos os que tiverem vontade de trabalhar, algum conhecimento de modelação, corte, costura e habilidades manuais para a confeção de acessórios e “carros alegóricos”.
A exceção é o Atelier de São Bartolomeu que, desde dezembro de 2023, acolhe a tempo inteiro duas designers de moda. A preparação dos trajes é complexa, estendendo-se de março /abril a agosto. O papel crepe é a principal matéria-prima utilizada, mas recorre-se também a papel de jornal, seda, kraft, toalha, etc., no sentido de se diversificar as experiências visuais, táteis e cromáticas. A fragilidade desta matéria levanta inúmeros desafios. A aprendizagem da confeção dos trajes é feita através de métodos de participação ativa e intergeracional, de modo informal e por via estritamente oral.
A proposta de inscrição no INPCI foi apresentada pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde (UFAFDN), entidade que congrega diversas Coletividades Culturais, Desportivas e Recreativas da região.
OC/MP