Porque gosto de arte — sobretudo quando a tentam silenciar

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Há momentos em que a realidade deixa de ser difusa e começa a ganhar contornos demasiado nítidos. Este é um deles.
Nos Estados Unidos, a censura de livros não é um episódio isolado nem uma reacção pontual. Tem números, tem estratégia — e, sobretudo, tem nomes.

Só no ano lectivo de 2023–2024, registaram-se 6.870 proibições de livros nas escolas públicas. Desde 2021, acumulam-se mais de 23.000 casos. Não são acidentes. São um movimento.

E como todos os movimentos, são organizados.
Chama-se Moms for Liberty.
Chama-se Citizens Defending Freedom.
Chama-se No Left Turn in Education.

Não agem com barulho — operam sim, com método. Listas, campanhas, pressão política, legislação. É uma arquitectura de controlo que se apresenta como defesa, mas que funciona como uma restrição.

Toni MOrrisson. Direitos Reservados.

E depois há os exemplos, livros.
Gender Queer, de Maia Kobabe — foi retirado de inúmeras escolas.
Maus, de Art Spiegelman — uma das mais importantes obras gráficas sobre o Holocausto, que também foi banida.
The Bluest Eye, de Toni Morrison — literatura que confronta a violência racial.
Não são casos marginais. São escolhas.
E dentro destas escolhas, a banda desenhada ocupa um lugar cada vez mais visível — e, por isso mesmo, mais atacado.
Talvez porque a BD não permite distância.
A imagem fixa o que o texto ainda poderia diluir.
O olhar é confrontado antes de poder recuar.
A banda desenhada não é um género menor. É um meio directo. E isso torna-a perigosa para quem prefere longas mediações, filtros, e amortecimentos.

Mas o padrão repete-se:
os livros visados falam de identidade, género, raça, corpo, e memória histórica.
Não é sobre a linguagem explícita.
É sobrea visibilidade.
O que está em causa não é proteger leitores — é controlar os discursos.
E aqui convém falar claro e sem rodeios:
não há neutralidade neste processo.
Quando se retira Maus, não estamos a discutir o formato — está-se a reconfigurar a forma como a história pode ser contada.
Quando se remove Gender Queer, não se está a preservar inocência — está-se a apagar experiências concretas.
Quando se afasta Toni Morrison, não se está a proteger sensibilidade — está-se a evitar o confronto.
Isto tem um nome: CENSURA.

E tem também uma consequência menos visível, mas mais profunda: a redução do campo do imaginável.
Porque ler nunca foi apenas o acesso a conteúdos.
Ler é um exercício de deslocamento.
É entrar em territórios onde não estamos garantidos.
É sustentar o desconforto.
É aceitar que o mundo não cabe numa única versão.
Quando este exercício é limitado, não se está apenas a retirar livros — está-se a estreitar a possibilidade de pensamento.

E talvez seja precisamente isso que está em jogo.
Não o excesso.
Mas a contenção.
Não o perigo.
Mas a complexidade.

Maus. Direitos Reservados

Há uma longa história das várias tentativas de silenciar a arte. E sabemos que todas falham — a prazo. Mas isso não as torna inofensivas no presente.
Cada livro banido cria um precedente.
Cada lista negra constrói um hábito.
Cada ausência normalizada torna-se mais difícil de reconhecer.
Por isso, a resposta não pode ser tímida nem abstracta.
Tem de ser concreta.
E também ela tem nomes.
Ler Maia Kobabe.
Ler Art Spiegelman.
Ler Toni Morrison.
E não apenas como gesto de resistência, mas como afirmação de um princípio simples:
ninguém deve decidir, por nós, o que podemos ou não imaginar.
Porque, no fim, é disso que se trata — não de livros, mas de LIBERDADE.
E essa, quando começa a ser editada, raramente fica por aí.

Referências:
PEN America — Banned in the USA: Beyond the Shelves (relatórios 2023–2025)
Reuters — Bertelsmann cranks up legal fight against US book bans as market grows (2026)
TIME — The Most Banned Authors in U.S. Schools
American Library Association (ALA) — State of America’s Libraries Report
The Guardian — investigações sobre grupos organizados por trás das proibições
Book Riot — análises sobre censura em banda desenhada e graphic novels
Estas fontes e exemplos permitem não confirmar apenas os números, mas perceber a estrutura — política, cultural e ideológica — que sustenta este movimento.

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