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Domingo, Julho 14, 2024

Por esta altura já nos anunciam o Natal – vem de mansinho, mas sem calor pelas ruas. Feliz Natal! Boas Festas! -Por Rosa Fonseca

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

Ao longo dos tempos assistimos com alguma benignidade ao que as sociedades nos impõem, outras, com acidez absoluta sem termos em conta quem somos e o que somos na comunidade.

As pessoas têm-se distanciado umas das outras, fechando-se mais em si mesmas e restringindo-se ao seu núcleo. Vivem desafinados porque não ouvem a mesma música; a da esperança e a da partilha. Sabemos que os dias se afunilam e nos consomem. Temos sobre as nossas cabeças tempestuosos problemas; pessoais e profissionais.
Somos este tempo descaraterizado de afetos e valores, mergulhámos numa letargia anunciada.

Mas dói-nos esta condição de desapego em que vivemos, remete-nos a uma culpabilidade sem desfecho elogiável.
Dói-nos esta indiferença que nos habita. Esbarramos nos olhares longínquos e rostos fechados. Vivemos rente à escuridão dos dias.
Estamos próximos das festas natalinas, um tempo de Ser, de renascer, ser cada vez mais no olhar e no coração do outro. Precisamos deste confronto connosco mesmos. Seremos capazes?

E por estes tempos, também nos dói a saudade dos dias anteriores ao Natal, quando, nas ruas, nas lojas, na vizinhança e pelas janelas abertas, ecoavam prontamente –, Boas Festas, Feliz Natal, Santa Consoada –, palavras revestidas de carinho e fraternidade. Um advir luzente.

Dói-nos agora, a geada de que são feitas as palavras. O vazio das bocas confinadas.
Havia uma ternura que adoçava os dias e suprimia as dores. Acalmava as agruras do quotidiano.
Aquecia as ruas, as casas e repunha a ressonância nos corações.
Mas o tempo desvaneceu-nos os passos e arrefeceu-nos o olhar. Somos um ponto qualquer num horizonte desfocado.
Abandonámo-nos.

Aflige-nos esta desesperança concentrada no corpo, um ruído surdo a corroê-lo como se tivesse nascido triste. Como se a presença do pranto fosse a única luz visível.
Dói-nos sim, o despovoamento das ruas e janelas. A luz sumida dos candeeiros, as sombras desarrumadas ao cair da noite. As ladainhas entre portas de um silêncio acumulado, de um desviver lento a céu aberto.

É urgente trazer às ruas, às pessoas, às famílias, ecos de alento e de esperança. Novas mãos que abracem. Abrir janelas.

Não há criativos ou designers que consigam registar um céu azul ou uma lua cheia, enquanto a sociedade deixar morrer os seus pedaços de sol. Talvez só os poetas, na sua insanidade, respirem um iluminado horizonte.

E vão longe, os dias de dezembro em que se ouvia com alegria, Boas Festas, Feliz Natal, como se o coração estivesse ali, bem junto à boca e a porta de casa sempre aberta. Vinha de dentro um compromisso de sorrisos, de olhares ameigados, suportes intermináveis para um abraço longo e apertado.

É só isto, é urgente fazer crescer o abraço. Repor a alegria que a vida nos nega.
Feliz Natal!
Boas Festas!

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