Por detrás da cortina…

Rosa Maria Aranha

Quantos segredos se escondem por detrás dessas esvoaçantes e braquiçadas cortinas…

Momentos altos e baixos, histórias tristes e delirantes vividas e presenciadas por ti…tantas profundas e distantes conversas que tivemos, discussões acessas e gastas em palavras gritantes para nada… tudo foi passageiro e instantâneo, colapsado em espiral, sem sentido e sem qualquer travagem por parte de qualquer um de nós…

Hoje, mirando através da transparência da cortina, choro e revejo o tempo oprimido e perdido e em vão, quiçá um motivo inquestionável, incomprensivel, incontrolável e injustificável… que poderia ter sido evitado se um de nós… Sim, se um de nós tivesse sido menos orgulhoso e fosse ao encontro do belo amor incondicional, que naquela noite azulada e brilhantemente estrelada, na areia, bem junto às ondas do mar, prometemos um ao outro que nunca nos separaríamos…

Como foi possível?
O que falhou?
Porque passaste a cortina?
Porque quebramos aquela promessa e compromisso…
Foste embora sem um adeus…

Sim, nada disto teria sucedido… se… se tivéssemos lutado e enfrentado tudo e todos, passado as barreiras e o piso minado… teríamos dado um final oposto e remediavelmente diferente ao nosso amor, juntos e unidos enfrentaríamos de mãos dadas e numa só aqueles obstáculos compostos por maldosos ruídos de terceiros, que não sabiam o quanto nos queriamos e nos amavamos…

Sabes, dolorosas e amargamente, todas as noites, lembro-me de ti, recordo-te, imagino-te junto a mim… sonho o quanto queria e desejaria que trespassasses a cortina com o teu corpo, entroncado e musculado, e com aquele olhar, penetrante e desafiante, que me fazem elevar ao infinito sem bilhete de regresso…

Se a cortina pudesse falar e ouvir o meu íntimo e último desejo, permitiria o teu regresso… nunca te teria deixado partir… teria atado e amarrado num nó cego, o teu corpo à sua longa cauda de cortina de seda… e, aqui e agora, estaríamos ainda juntos…

Aguardo e aguardarei aqui por ti… espero, ansiosamente, o teu corpo a trespassar por detrás da esvoaçante cortina…

Ai, Ai… Não, Não…
Um reboliço e um tornado emerge por detrás da cortina…

O inesperado acontece…

Foi quando de repente, acordo e grito:
-Não!!!

E, aí vejo-te a acalmares-me e a sussurrar-me ao ouvido:
– Está tudo bem, tiveste um pesadelo…Estou aqui contigo… Não vou, nem vamos a lado nenhum… Nunca duvides disso… Amo-te!

Olho-o nos olhos, choro, abraco-o com força e beijo-o, delicada e intensamente, como se fosse um último beijo de despedida, sem fim…

E foi assim que… óbvio e indubitavelmente, tudo e todo o resto ficou, fica e ficará registado por detrás da cortina…