22ª Edição do Festival Terras sem Sombra decorrerá em diversos concelhos do Alentejo e Ribatejo


A apresentação da programação do TSS decorreu no dia 11 de fevereiro na Embaixada da República da Polónia, em Lisboa, na presença de oito dezenas de convidados, do corpo diplomático e de autarcas, da comunicação social e representantes das artes e da sociedade civil. Momento para detalhar um calendário de atividades que se estende de fevereiro a dezembro de 2026, com o concelho de Arronches a acolher, no final deste mês, o primeiro fim-de-semana de música, património e biodiversidade.
Como nota comum a todas as intervenções, a ideia de um território de excelência, o do Alentejo, sem esquecer a região ribatejana onde, desde há três anos, o Festival também marca presença. Palcos para a confluência entre arte e natureza, num grande destino musical, patrimonial e ambiental. Também a imagem de um Alentejo como um espaço de integração e de aceitação do outro, mais-valias para encarar o futuro em territórios de baixa densidade.
No decorrer da sessão, Dariusz Dudziak, Ministro-Conselheiro na Embaixada da Polónia, em representação da Chefe de Missão, Dorota Barys, destacou ser esta «uma oportunidade única para o desenvolvimento das relações culturais bilaterais entre a Polónia e Portugal. Um caminho de entendimento entre dois povos e dois países». O responsável aproveitou para «saudar o público alentejano e a oportunidade de levar àquela região o património polaco».
Por seu turno, José António Falcão, Diretor-Geral do Festival Terras sem Sombra, afirmou que «contar com a Polónia como país convidado da presente edição enche-nos de alegria. Trata-se de uma grande nação europeia, com excelência nos autores e intérpretes. Os seus profissionais estão entre os mais criativos da cena moderna. A colaboração com o município de Ribera de Arriba é um privilégio. Ali vive uma importante comunidade portuguesa, num território que é um exemplo no combate à desertificação humana».
Ana Paula Amendoeira, Vice-Presidente da CCDR Alentejo, salientou a «importância deste projeto [TSS] para a região e o país, dada a sua projeção cultural e transversalidade. Uma iniciativa que faz uma abordagem crítica ao território e concorre para a coesão das comunidades. Destaco, ainda, o pioneirismo do Terras sem Sombra na preocupação com questões ambientais».
Tomás Manuel Fernández Muñiz, Alcaide de Ribera de Arriba, concelho no Principado das Astúrias, trouxe aos presentes uma breve descrição do seu município, «pequeno, com apenas 1.900 habitantes, num território de 22 km². Um território muito apostado na cultura, com inúmeras associações culturais. Contamos com uma casa das artes e um auditório».
A encerrar, a Infanta D. Maria Francisca de Bragança, Duquesa de Coimbra, destacou sentir-se «honrada pelo convite para presidir ao Prémio Internacional Terras sem Sombra. Há algo que aproxima o Alentejo e a música erudita: a beleza e a serenidade que ambos nos trazem. Este é também um festival com capacidade de unir».
Uma sessão marcada pela degustação da cozinha polaca e por um momento musical, intitulado «Uma Visão da Música Europeia: Interpretações Luso-Polacas (e não só)», entregue à soprano Patrycja Gabrel, a Inês Vaz, no acordeão, e a Pedro Rafael Costa, no alaúde e guitarra.
Um ano de reafirmação do TSS
A presente temporada do TSS consolida a escala nacional e internacional do TSS. Para além da pujante presença musical da República da Polónia, o Festival agenda concertos de continuidade com países parceiros como Espanha, Bélgica, Itália, México, República Checa e inaugura a relação com a Costa Rica e a Suíça. Uma pluralidade de contactos internacionais que se substancia na apresentação, em maio próximo, do TSS em Ribera de Arriba, na região de Oviedo, Principado das Astúrias.
No plano local, a programação percorre 13 concelhos do Alentejo e um concelho ribatejano. De sublinhar o alargamento a dois novos municípios: Alcácer do Sal e Grândola, e a realização de um concerto-mistério num concelho a anunciar no decorrer da temporada. Salienta-se a aposta numa robusta programação inclusiva e para públicos mais jovens, ao valorizar a participação das famílias, o diálogo entre gerações e o convite a pessoas em risco de exclusão.
A 28 de março, Santiago do Cacém acolhe o regresso do Prémio Internacional Terras sem Sombra, sob a presidência da Infanta D. Maria Francisca de Bragança, Duquesa de Coimbra. Uma iniciativa que se apresenta em moldes distintos das edições anteriores, com duas novas categorias: «Sons sem Sombra», para novos talentos na música, e «Serviço à Comunidade/Cooperação Internacional». Distinções que se juntam às três modalidades tradicionais do Festival: Música, Património Cultural e Salvaguarda da Biodiversidade.
Da extensa programação, há a destacar a realização em Beja, a 21 de novembro, de uma ópera encenada. Uma estreia no território alentejano, com a Ópera: «Maria Stuart», de Martin Hennessy, pela espanhola Compañía de Ópera LaJoven, Fundación Teatro Joven. Ainda nos destaques à programação, sublinhe-se a apresentação, a 18 de abril, em Ferreira do Alentejo, da obra-prima de Camille Saint-Saëns, «Le Carnaval des Animaux».
Primeira paragem da presente temporada: Arronches
Destino inaugural da presente temporada, o concelho de Arronches acolhe o TSS no fim de semana de 28 de fevereiro e 1 de março. A componente musical, na noite de sábado (21h30), fica entregue ao concerto «Um Piano, Quatro Mãos: Obras de Compositoras Polacas e Portuguesas dos Séculos XX/XXI». A Igreja Matriz da sede de concelho acolhe o polaco Zarębski Piano Duo, com Grzegorz Mania e Piotr Różański.
O ensemble, fundado em Cracóvia, dedica-se principalmente ao repertório para piano a quatro mãos, com especial incidência nas obras dos séculos XIX e XX, conciliando o grande cânone europeu com programas menos frequentados. O diálogo entre intérpretes, o equilíbrio tímbrico e a clareza formal são elementos centrais da sua leitura dos repertórios escolhidos, denotando sempre um assinalável critério artístico.
Tem desenvolvido atividade regular na Polónia e no estrangeiro, com concertos em diversos países da Europa e do Médio Oriente, além de extensas digressões nos Estados Unidos da América. Toca com regularidade peças de Brahms, Dvořák, Schubert, Moszkowski, Mozart, Barber, Ligeti e Corigliano.
Na componente patrimonial, o fim-de-semana arronchense reserva a tarde de 28 de fevereiro (15h) ao tema «Raia, Identidades e Contrabando: A Fronteira Invisível», numa ação organizada em parceria com os Municípios de Arronches (Portalegre) e La Codosera (Badajoz).
Arronches situa-se numa das fronteiras mais antigas da Europa, definida em 1297 pelo Tratado de Alcanizes. No século XX, o contrabando tornou-se uma prática recorrente de subsistência, criando redes informais entre aldeias portuguesas e espanholas. A raia foi também espaço de passagem de refugiados e opositores políticos, deixando marcas na memória coletiva. Esta atividade propõe uma leitura da fronteira como espaço histórico e social ainda presente no quotidiano de Arronches. Habitantes de Arronches e de La Codosera encenam quadros vivos do contrabando na freguesia de Esperança, onde se encontra a ponte internacional mais pequena do mundo.
No domingo, 1 de março (9h30) a ação de Salvaguarda da Biodiversidade é dedicada ao tema «As Mulheres na Agricultura: Guardiãs do Futuro Comum da Humanidade». Dois mil e vinte e seis foi declarado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher na Agricultura, sublinhando a necessidade de políticas eficazes para a igualdade de género nos sistemas agroalimentares. Em Arronches, como em grande parte do interior alentejano, as mulheres rurais tiveram um papel histórico central na agricultura familiar e na gestão sustentável da terra. Guardaram sementes, preservaram a diversidade agrícola e transmitiram saberes essenciais sobre solos, ciclos e plantas. Hoje, perante o envelhecimento, o despovoamento e as alterações climáticas, esse conhecimento revela-se decisivo. A iniciativa propõe refletir sobre as mulheres rurais como agentes de sustentabilidade, segurança alimentar e biodiversidade, entre memória e futuro.