Poderá a intranquilidade ignorar o poder económico?

Eis uma interrogação que lanço à consideração de quem souber responder, porquanto aquele que hoje traça estas linhas resolveu tal dilema há já longos anos. Preferiu, na altura, ir ao encontro de uma justa serenidade, preterindo o avultado salário de que usufruía. Dirão alguns, por certo, que tal decisão derivou do medo de enfrentar o perigo ou, porventura, de um qualquer vislumbre de cobardia.

Importa, porém, rectificar que nem uma coisa nem outra motivaram o seu agir. O que verdadeiramente se sobrepôs a quaisquer factores, fossem eles positivos ou negativos, foi o imperativo da estabilidade familiar. Pesou-lhe no espírito a existência de um filho ainda menor, a quem tinha o sagrado dever de oferecer a segurança que as circunstâncias ameaçavam. Sabia bem que, a suceder-lhe alguma desgraça, o golpe atingiria irremediavelmente a esposa e a criança.

Abro, pois, este parêntese para garantir a quem me lê que as palavras seguintes transportam a mais estricta realidade.

Vivia Carlos — o protagonista desta narrativa — com a sua mulher e o seu querido menino, então com menos de dez anos de idade, na cidade de São Paulo, no Brasil. Ali, como se sabe, a insegurança nas ruas e no quotidiano é uma constante assustadora.

Exercendo funções numa grande empresa farmacêutica, Carlos auferia uma remuneração muito acima da média, o que garantia aos seus a estabilidade financeira que qualquer homem desejaria alcançar.

Todavia, regressamos à questão primordial: poderá o dinheiro sobrepor-se à tranquilidade de uma existência pacífica?

Como simples narrador, a minha resposta é um redondo e definitivo não. E assim também o entendeu o protagonista. Carlos abdicou do cargo, para sincero lamento da direção da empresa, e preferiu empreender a viagem de regresso, buscando a pacatez e o abrigo da sua terra natal.