Pinto da Costa, o Presidente dos Presidentes, sobe à eternidade azul

“Amo o Porto desde os primeiros momentos da minha vida. 19 anos sem vir à Câmara foi muito tempo. Encontrámos as portas fechadas. Hoje, como em 1999, temos à nossa frente um homem [Rui Moreira] que gosta do FC Porto e que, acima de tudo, ama a cidade do Porto.” Foi com estas palavras que Pinto da Costa começou o seu discurso na varanda da Câmara Municipal do Porto no dia 13 de maio de 2018, perante uma multidão de 250 mil pessoas, que nesse momento fizeram um silêncio sepulcral. Só um homem com o carisma e o reconhecimento de Jorge Nuno Pinto da Costa conseguiria emudecer a sala de visitas do Porto numa noite em que parecia não caber nem mais um alfinete nos Aliados. Nessa noite de festa, celebrava-se a conquista do campeonato Nacional 2017/18. Uma noite épica para a nação portista. Sérgio Conceição, o treinador que Pinto da Costa tinha ido buscar ao Nantes, terminava a sua primeira época vitorioso com 88 pontos no final do Campeonato, superando a melhor marca do clube, que pertencia até aí, a José Mourinho (2002/03), e igualando o registo máximo que pertencia ao Benfica. Os portistas tinham motivos de sobra para festejar, aliás, estavam sedentos de vitória desde 2013, ano da conquista do anterior campeonato nacional. Talvez por isso, a multidão durante toda a tarde não se cansou de gritar “o campeão está de volta”. Era percetível a emoção nas palavras de Pinto da Costa, justificada inteiramente com outra vitória pessoal. Momentos antes, tinha recebido pelas mãos de Rui Moreira a Medalha de Ouro da cidade do Porto, o mais alto galardão do município. Numa altura em que era já o Presidente de um Clube de Futebol com maior longevidade, pois, tinha superado os 34 anos de reinado do mítico líder do Real Madrid, Santiago Bernabéu. Depois do silêncio e terminado o discurso, um estrondoso grito “Pinto da Costa Olé!…” galvanizava a multidão que pronta e longamente aplaudiu o seu Presidente. Recordo arrepiada essa noite e o turbilhão de emoções partilhado com milhares de portistas e sinto ainda a ecoar a alegria esfuziante da minha filha, que tal como a maioria das crianças e adolescentes portistas, não tinham até então comemorado um campeonato do seu clube nos Aliados.
A equipa desceu depois até uma plataforma montada em frente à câmara e os jogadores percorreram, um a um, a passadeira até ao palco situado a meio da avenida. O mar azul e branco estava de volta aos Aliados para festejar. Felizmente!
De facto, tinham passado 19 anos desde a última vez que as portas e as luzes da Câmara Municipal do Porto se abriram à festa Portista. Uma injustiça reparada pela atual edilidade.
A cidade do Porto deve muito ao FCP e sobretudo a Pinto da Costa. Foram as suas conquistas e palmarés que colocaram o Porto no panorama Internacional nas últimas décadas. A presença assídua da equipa de futebol nas competições internacionais e as taças conquistadas, são 7 os troféus internacionais, têm levado o nome do FCP a vários cantos do mundo. Ainda antes de Ronaldo se ter tornado no maior embaixador de Portugal, já o Futebol Clube do Porto era conhecido e colocava o nome da cidade do Porto num patamar internacional. Cada vitória do Clube é também uma vitória da Cidade e da região Norte. Pinto da Costa vivificou o Hino do próprio Clube e com o seu “grito audaz (da tua) ardente voz” habilmente foi arrastando o povo do Norte para a glória, tornando a utopia realidade “Oh, Porto, então verás vibrar, A multidão num grito só de todos nós”. E o Porto tornou-se uma Nação!
Quando Pinto da Costa assumiu a presidência do FCP em 1982, vivia-se uma grande rivalidade Norte-Sul e um enorme centralismo do Poder em Lisboa. Com José Maria Pedroto – o primeiro dos seus 24 treinadores, todos escolhidos por ele, até Sérgio Conceição – deu início á mística portista. Tornar um Clube regional num Clube Internacional, levar a pronúncia do Norte mundo fora e assumir a mística portista são o maior legado de um líder irrepetível. E tais feitos, exigiram uma luta permanente, que só um visionário com a determinação e a inteligência de Pinto da Costa poderia almejar. Também com coragem e palavras acutilantes. Basta-nos recordar uma das suas frases mais marcantes: “Por mais pontes que façam, por mais milhões que nos levem, por mais que nos hostilizem, nós havemos de mostrar que aqui nasceu Portugal e aqui continuará a ser o baluarte da nação que todos amamos: do Norte esquecido, do Norte hostilizado.”
O Norte que desde o conhecimento do desaparecimento físico de Nuno Pinto da Costa se uniu e vestiu de azul e branco numa demonstração ímpar de Amor e gratidão pelo seu Presidente.
Regressemos a 1999, também em maio, a equipa do FCP liderada pelo seu Presidente foi recebida nos Paços do Concelho por Fernando Gomes para comemorar um título inigualável até hoje, o Pentacampeonato. Um dos recordes mais emblemáticos da Presidência de Pinto da Costa. Sob a sua liderança, o FCP tornou-se o primeiro, e até agora único, Pentacampeão Nacional de Futebol. Uma história que tinha começado com Sir Bobby Robson, seguiu com António Oliveira e culminou com o “engenheiro do Penta” Fernando Santos.
Estávamos nos anos dourados da presidência de Pinto da Costa. Tinha cumprido 17 anos de presidência, estava quase a atingir a maioridade e já tinha conquistado 18 troféus nacionais dos quais 11 campeonatos nacionais, uma Taça Intercontinental e uma Taça dos Campeões Europeus. Tinha também tornado o FCP na primeira SAD do futebol português.
A viragem do milénio faria substituir o mítico Estádio das Antas pelo atual Estádio do Dragão. E a marca de Pinto da Costa crescia, vincava e engrandecia o Clube com a garra e a consciência de uma luta quase hercúlea para debelar os obstáculos dos “drs. de Lisboa” mas também as mentalidades mais tacanhas de um Norte fechado à inovação. A cidade não mais seria a mesma, e desenhava-se de outra forma a zona das Antas, não isenta de polémicas. Quando Pinto da Costa quis rebaixar o relvado do estádio das Antas para aumentar a sua capacidade para 75 mil lugares foi bastante criticado. Mas uma das maiores polémicas surgiria com a construção do Estádio do Dragão, que só foi concluído após a intervenção do então Presidente da República, Jorge Sampaio, colocando ponto final á guerra aberta por Rui Rio e que tinha levado Pinto da Costa a suspender as obras. Pinto da Costa inaugurou o estádio em 2003, com um jogo amigável com o Barcelona no qual se estreou Leonel Messi. E se a “guerra” com Rui Rio lhe custou o encerramento das portas da Câmara Municipal do Porto, a ousadia da mudança de nome para “Estádio do Dragão” só reforçava uma liderança que se tornava cada vez mais firme e visível no Amor das novas gerações de adeptos portistas, aqueles que com ele aprenderam a Amar o Porto e a afirmar que “azul e branco é o coração”. A massa de adeptos não parava de crescer. Tal como os sonhos! Também os de Pinto da Costa… O Homem inquieto e culto, que desde muito cedo ia à Opera e ao Teatro, que privava com artistas e admirava os poetas, tinha de expor e dar brilho ao espólio do Clube. Eram as verdadeiras obras de arte, conquistadas com suor e lágrimas ao longo dos tempos. Por isso, no dia do 120º aniversário do Clube abriam-se as portas do Museu FCP, com a mais nobre missão “preservar e divulgar o património material e imaterial do clube. (…) conservar e partilhar a memória (…) como instituição determinante para o enriquecimento social e cultural das comunidades, através da transmissão dos valores éticos e desportivos que caraterizam o clube.”
Pinto da Costa viveu para o seu clube, e durante os 42 anos da sua Presidência nunca deixou de lutar pelo FCP e pela sua cidade. Afirmou numa entrevista: “Para mim, o lugar mais importante que há no desporto é ser presidente do FC Porto. Depois de o ter sido, não posso aspirar a mais nenhum lugar. Ir para qualquer outro posto, para mim, não é subir. É descer.»
Infelizmente, a minha convicção é que a longevidade quer do seu reinado quer da sua idade, foram-lhe toldando a racionalidade, deixando-o nos últimos tempos mais exposto aos erros. A sua teimosia em querer candidatar-se mais uma vez, conduziram à sua saída da forma mais radical, ainda que democrática. Mas saiu com mais um troféu, a Taça de Portugal, ganha no Jamor em maio do ano passado. Um momento histórico em que Pinto da Costa ainda se encontrava ao comando da SAD do FC Porto, e partilhava a tribuna do Estádio Nacional do Jamor, ao lado do seu sucessor André Villas-Boas. Momento marcado simbolicamente pelo abraço da passagem do testemunho.
Este Domingo, tal como tantos outros, era dia de Jogo. Se o FCP jogasse em casa como se diz habitualmente na cidade, seria dia de “ir à Catedral”. A equipa está no Algarve para mais um jogo, mas os adeptos, na sua maioria vestidos a rigor desciam ou subiam a Alameda do Dragão para prestar homenagem ao seu Presidente. O terrível “bicho” tinha ganho o último jogo contra Pinto da Costa que tombou fisicamente, aos 87 anos, no final da tarde deste sábado, 15 de fevereiro.
O Mar azul e branco verga-se no memorial improvisado entre as portas 23 e 24 do Estádio do Dragão. Adeptos de todos os lados chegam com cachecóis, camisolas, velas, flores, mensagens, vários adereços colocados numa homenagem ao seu líder inesquecível. Um sentimento silencioso de gratidão e reconhecimento do Presidente dos presidentes.
E antes de terminado o dia, todo o plantel do FCP chegou ao Dragão, após presença no velório, para juntar ao já imenso memorial azul e branco, alguns dos troféus ganhos e a vitória desta noite frente ao Farense. Uma vitória dedicada a Pinto da Costa.
Esta manhã de segunda-feira o mar azul centra-se na zona das Antas para a última despedida ao mais titulado dos Presidentes, ao Homem que sonhou e conseguiu colocar o FCP no Patamar das maiores equipas do Mundo. E eis, que surpreendentemente, surge a notícia aguardada por todos, “o Presidente dos Presidentes estará no relvado da casa de todos os portistas uma última vez.” O seu corpo físico, diga-se! Porque o espírito do indomável Dragão, o Rei, viverá eternamente no coração de todos os portistas. Porque como diz a canção “ o nosso amor É eterno, não tem fim. Eterno será Pinto da Costa. Um homem inesquecível e irrepetível, que nos deixa um legado ímpar e inigualável. Pinto da Costa olé! Obrigada, Senhor Presidente.
Maria João Coelho