Paulo Moreira (1962–2026) — Se eu fosse um barco de Aveiro


Direitos Reservados

Na maior tristeza, perplexidade e profunda dor, comunico o falecimento, hoje, do meu querido amigo Paulo Moreira (63 anos), companheiro dos tempos de estudantes e de dirigentes da Associação Académica da Universidade de Aveiro. O Paulo era um ser humano bondoso, generoso, raro, imensamente atento aos outros — desses amigos que a vida oferece poucas vezes e que deixam uma ausência difícil de nomear.

Durante os anos em que viveu e estudou em Aveiro, entre 1988 e 1995, o Paulo deixou uma marca indelével na vida académica e cultural da cidade. Foi nesse tempo que criou uma das mais belas canções dedicadas a Aveiro —“Se eu fosse um barco de Aveiro” — hoje assumida como um verdadeiro hino, integrado no cancioneiro afetivo da região e da Universidade. Recordo bem a emoção do primeiro dia em que essa canção foi apresentada aos estudantes: uma cidade inteira cabia ali, na metáfora do barco, da Ria, da partida e do regresso.

Mas o Paulo era muito mais do que essa canção que ficou connosco. Ator, poeta, declamador, encenador, professor e editor, repartiu a sua criação entre a literatura, o teatro e a palavra dita em voz alta — com uma intensidade serena e uma ética profunda. Licenciado em Ensino de Física e Química (com estágio na Escola Secundária José Estêvão), mestre pela Universidade de Aveiro e pós‑graduado em Teatro e Educação, foi docente e homem de palco, unindo conhecimento, sensibilidade e compromisso cultural. Desde 1999, desenvolveu um percurso notável na ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, onde se afirmou como ator e encenador, sempre atento às relações humanas, ao texto e ao mundo.

Publicou romances, teatro e prosa, fundou projetos editoriais independentes e integrou coletivos literários, mantendo uma prática artística livre e exigente. Como declamador de poesia, devolvia à palavra o seu peso ancestral, a sua respiração justa. Como amigo, era presença discreta e inteira — daquelas que sabem ouvir, perguntar e cuidar.

A morte do Paulo Moreira empobrece a cultura portuguesa e entristece profundamente todos os que com ele partilharam caminhos, palcos, salas de aula e afetos. Fica connosco a sua voz, a sua obra e, sobretudo, esse gesto simples e luminoso de quem soube estar no mundo com delicadeza.

Se fosses um barco de Aveiro, Paulo, sei que continuarias a navegar — pela Ria da memória, jamais à ré, com essa bondade, talento e sempre com afetos.