Paris, por fim

A propósito da crónica anterior, quero falar-vos de Dália e da nossa viagem de autocarro para cima. Vínhamos de Lisboa, não nos conhecíamos. Ela lia. Eu procurava carregar o telemóvel, assentar meus pensamentos no digital, relaxar de qualquer coisinha de emocionante que acontecera entretanto. Não recordo o quê.

Ao tomar o meu lugar, espreitei de soslaio o livro muito grosso que tinha nas mãos. Disse-me que era uma companhia, que talvez não o entendesse. Estava em francês. Era um “nim”, mas a interação abriu a porta a uma troca de considerações que nos favoreceu até hoje. A discussão, que se centrara nas problemáticas da sociedade atual e na sua visão de França – afinal, vivia em Paris, fomentou-lhe a curiosidade. O que fazia um jovem, sozinho, no último expresso da noite? Mostrei-lhe o meu projeto – o livro que havia publicado, esse meu tiro no escuro. Mostrei-lhe a insegurança que representava viver dos, e para, os versos e a (in(consciência necessária para se ser feliz, o profundo crer nas próprias capacidades.

A surpresa acendeu-lhe o rosto, prestou-me atenção, compreendeu o meu interesse na leitura que trazia e asseverou-me que não teria razões de receio. Que iria, aliás, conhecer Paris em breve. Que seria minha tradutora. Respondi não ser possível. Nada tinha a fazer na cidade. Ninguém me (re(conhecia. Ela então abandou a cabeça e deixou cair uma ideia que colocou na minha: ficaria famoso. E todos os famosos passam por Paris? Pergunto-me…

Um ano haveria de correr entre o inusitado encontro e a chegada, a conta-gotas, de um e outro convite para trabalhar na capital francesa. Trabalhos literários, claro, oportunidades únicas que não me surpreenderam tanto quanto a visão de Dália. Estava correta. E eu estava em Paris, por fim, num lugar de destaque, diante do público, no Consulado-Geral de Portugal, a representar os poetas de Língua Portuguesa presentes numa antologia da qual também fazia parte, debatendo questões decisivas, valendo-me das peripécias de minha tia Eduarda.

No dia seguinte, Dália convidou-me para jantar. Encontramo-nos nos arrabaldes de Paris, em Torcy, comemos que nem lordes, saímos para um copo e o resto fica connosco. Salvaguarda-se a descrição do privado. São livres de especular à vossa maneira, mas o importante é que tudo vá encaixando, verdade? Como peças de um puzzle maior, tenho atentado aos sinais, às coincidências (?). A vida sempre se justifica.

Durante a nossa viagem a caminho de casa, vindos de Lisboa, desdobrei sobre os joelhos uma dessas justificações. Minha avó, irmã de Eduarda, também escrevia. Para o jornal da terra, por exemplo, enviava poesia. E por nunca mais ter publicado, devido ao seu desaparecimento¹, uma parte de mim sentia o dever de carregar a tocha. Queria também orgulhá-la e manter-me positivo diante da luta que é chegar às livrarias.

Era início de Junho, estava prestes a lançar um livro e carregava a avó no coração. Em
pulgas, enquanto aguardava que a editora me enviasse alguns exemplares, sonhava com a sua presença, em ser digno da sua talentosa costela, do seu nome. E a avó sorriu.

Uma década após a sua última publicação, na semana em que recebi o caixote com os ditos cujos, o jornal da terra publicou-a sem menos nem porquês. Na exata semana em que as minhas estrofes ganharam corpo de tinta, em que se espalhavam sobre papel, a avó deu um jeitinho de aparecer, de estar para a festa.

Ninguém notou. Divulgaria o feito uns dias mais tarde. Havia pandemia. Era tudo em prol do incerto. E quando minha mãe chegou com o jornal, era ainda segredo. Exceto para ela. Entre o cá e o lá, acompanhava-me, ouvia-me, como vem acontecendo.

Dália concordou.

¹ Desaparecimento físico, uma vez que o tempo apenas (con(funde matérias orgânicas – a lembrança da voz, uma expressão, algum cheiro, mas nunca o espírito. O espírito nunca desaparece. O espírito está sempre presente, pois é invocado.