Os Novos Velhos do Restelo (Agora com Wi-Fi)

Há um fenómeno curioso a acontecer diante dos nossos olhos… e não, não é a IA a ganhar consciência nem a escrever sonetos baseados nos de Camões. É algo muito mais humano, previsível e, admito, deliciosamente irónico: o ódio irracional dirigido a quem admite usar Inteligência Artificial no seu trabalho. Não a quem a usa, porque isso quase todos usam, mas a quem tem o desplante de o dizer em voz alta.
Vivemos na era da transparência… desde que ela não incomode ninguém.
Falar deste tema é essencial. E é precisamente por isso que esta crónica está n’O Cidadão. Porque este é um projecto raro e sério de jornalismo livre, que não se limita a repetir discursos confortáveis nem a alinhar em histerias coletivas. Aqui dá-se espaço à reflexão crítica, ao contraditório e às perguntas incómodas. Num país onde ainda confundimos opinião com ataque pessoal e debate com gritaria, falar sobre o ódio à IA é falar sobre medo, ignorância seletiva e resistência à mudança: temas tão antigos quanto o ser humano, mas agora vestidos de modernidade digital.
O mais fascinante neste ódio não é a sua existência (o ser humano sempre odiou aquilo que não entende), mas a sua incoerência olímpica. As mesmas pessoas que apontam o dedo e gritam “fraude”, “batota” ou “morte à criatividade” a quem usa IA para escrever, estruturar ideias ou fazer brainstorming, vivem rodeadas de algoritmos desde que acordam até que se deitam. Spotify a escolher a música “perfeita”, Google Maps a decidir o caminho, correctores automáticos a salvar textos que, sem eles, seriam crimes linguísticos… Mas essa IA não conta. Essa é “boa”. A outra… é do demónio.
Criou-se uma hierarquia moral da Inteligência Artificial. Há a IA aceitável (invisível, silenciosa, conveniente) e a IA pecadora, aquela que se atreve a tocar na criatividade, esse altar sagrado onde muitos nunca entraram, mas fazem questão de vigiar à porta. Usar autocomplete no telemóvel é progresso. Usar IA para estruturar um texto? Heresia. É quase bonito, se não fosse tão absurdo.
Este padrão não é novo. Já o vi antes, muitas vezes. Vi-o quando falei de esoterismo com seriedade num mundo cheio de burlões. Vi-o quando questionei narrativas cómodas no bem-estar emocional. Vi-o quando publiquei livros, quando expressei opiniões informadas, quando me recusei a alinhar no consenso fácil. O rótulo muda, o mecanismo é o mesmo: quem não compreende, ataca. Quem não faz, critica. Quem não estuda, grita.
A caça às bruxas moderna não precisa de fogueiras. Precisa apenas de comentários indignados e emojis zangados. Artistas são “cancelados” por dizerem que usam IA para brainstorming. Escritores são crucificados por admitirem que recorrem a ferramentas para estruturar ideias. Como se a criatividade tivesse de ser penosa para ser legítima. Como se sofrer fosse critério de qualidade. É a romantização do esforço inútil elevada a virtude moral.
Depois temos a minha parte favorita: os detetores humanos de IA. Uma nova espécie rara que “nota logo” quando um texto foi escrito por inteligência artificial. Curiosamente, costumam notar sobretudo quando um texto é claro, bem estruturado e coerente. O que diz mais sobre a expectativa que têm da escrita humana do que sobre a IA. Parece que escrever bem passou a ser suspeito. “Isto está demasiado bom para ser humano” talvez seja o insulto mais triste do nosso tempo.
Confunde-se, de forma quase comovente, ferramenta com talento. A máquina não faz o profissional. Nunca fez. Um fotógrafo não é a câmara. Um chef não é o fogão. Um escritor não é o teclado. Há uma diferença abismal entre um profissional que usa IA como parte de um processo consciente, crítico e criativo, e alguém que copia-cola resultados sem critério. Mas essa distinção exige pensamento. E o pensamento dá trabalho.
Em Portugal sempre tivemos um nome elegante para este tipo de resistência: os velhos do Restelo. Hoje regressaram em versão digital, cheios de certezas, medo e comentários inflamados. Alertam-nos contra os mares tenebrosos da IA enquanto usam algoritmos para filtrar o spam, editar fotos e decidir o que ver a seguir. É uma tradição nacional: resistir à mudança… até ela se tornar inevitável.
A história repete-se com uma regularidade quase reconfortante. Primeiro ridiculariza-se. Depois combate-se. Por fim, adopta-se como se sempre se tivesse apoiado. Daqui a uns anos, esta discussão vai soar tão absurda como discutir se era batota usar calculadoras ou computadores. E muitos dos atuais críticos estarão a usar IA às escondidas, ou abertamente, a fingir que nunca disseram nada.
Se quiser aprofundar esta reflexão, com humor, sarcasmo e zero paciência para hipocrisias convenientes, o episódio 46 do podcast «IA & EU» mergulha precisamente neste fenómeno do ódio irracional a quem usa Inteligência Artificial. Um episódio para curiosos com cérebro funcional… e para haters que ainda vão acabar a usar IA para escrever comentários indignados sobre a IA.