Os não-lugares – Por Patrícia Mota de Almeida

Um não-lugar é um espaço que não origina histórias, relações, memórias ou identidades. Não retém rostos, nem nomes. Não guarda rancor, ódio ou amor. É isento de olhares demorados e de trocas de ideias. É um lugar fluido, de drenagem, ainda que incapaz de filtrar as letras necessárias para escrever “vínculo”. O convite para permanecer é inexistente porque é alérgico à partilha, e, ainda que seja um espaço habitado sem sentido, tem sempre seta em direção à saída.
A descrição é minha, mas o termo é do antropólogo francês Marc Augé, que nos anos 90 utilizou o termo “não-lugar” para se referir aos espaços que tinham como mera função a transição, consequência das necessidades da sociedade contemporânea que fez nascer os corredores do metro, áreas de serviço, salas de espera, supermercados e todos os espaços com os quais o homem tem uma relação de consumo.
Na verdade, estes não-lugares não deixam de ser lugares: são sítios funcionais, descaracterizados, efémeros e finitos, ainda que meçam tempos sem fim – de espera, de atrasos, de pressa e impaciência. Não passam de um intervalo de tempo entre o momento de chegada e o da partida e são, assim, prova de que a arquitetura pode ser relógio e ditar o ritmo, obrigar a pausas dispensáveis e roubar as necessárias, tiranizando percursos ao pré-definir direções.
O anonimato é regra e a mente é quase obrigada a existir num outro local: quase sempre no telemóvel (hoje em dia, estes não-lugares originam corcundas precoces), mas também no ponto de chegada, nas “to-do lists”, no horário, no calendário, em qualquer momento que não o presente. São os templos modernos da solidão coletiva, essa que existe no seio de uma constante fuga à solidão individual, onde o tempo se molda neutro, apático, inútil (quando é que um espaço passou a ser sinónimo de tempo e não de lugar?).
Talvez, para que o tempo comece a ter vida, seja necessário transformar não-lugares em lugares. Ainda que coletivamente possam continuar a ser vistos como meras transições, o sentido individual pode ser qualquer um, porque tudo depende do que escolhemos fazer nesse espaço – se manter a cabeça baixa fixada no ecrã, ou se olhar em frente e demorarmo-nos em novos olhos.
Pode ser que, à luz da distância certa, os novos olhos até sejam os antigos e isso ajude a encontrar poiso num corpo já conhecido e a recuperar um colo então perdido. Ou não. Cabe a cada um a decisão de metamorfosear um não-lugar, ao transformá-lo em pessoa, ou então deixá-lo – a ele, lugar, ou a ela, pessoa – ser transitório. É tudo uma questão de tempo. E de espaço.