Os magos da música – Piazzola e Hermeto

Tive a sorte, de ter convivido com os maiores músicos deste século – Hermeto Pascoal e Astor Piazzolla.
Comecemos pelo Piazzola. Quando, há décadas, ao lado do Manuel Paulo (Ala dos Namorados), assistimos ao maior concerto que assisti em toda a minha vida, conseguiu destronar os “Genesis”, em Cascais, estava muito longe de pensar, que um dia, ia ser seu guia!
Quando o Avelino Tavares (Mundo da Canção) o trouxe ao Porto, pediu-me para o ir buscar ao Aeroporto. Eu nem queria acreditar!
Saiu do avião, com um saco de plástico na mão, onde transportava: escova de dentes e lâmina da barba. E, depois dos cumprimentos habituais, primeira frase que ele pronunciou foi: Leiton! (ver como se diz leitão em espanhol). Eu levei-o ao local, onde se encontravam as últimas sandes…
E muito satisfeito com o repasto, informou-me de que vivia mesmo em frente a uma casa de leitões! Uma simpatia, um bem humorado e um génio! Um dia, gostaria de fazer ao fado, aquilo que ele fez ao Tango!
Ele é que é verdadeiramente um compositor contemporâneo no verdadeiro sentido da palavra e não, aqueles compositores de computador, que nem melodia, nem harmonia… Uma “merda” de música, que ninguém vai ouvir daqui a cem anos…Enquanto, continuaremos a ouvir Miles, Beethoven, Beatles, etc…
Agora a intensidade, o virtuosismo (só virtuosos tocam Piazolla), a expressão musical, da música de Piazola, essa sim, vai-se continuar a ouvir, daqui a mil anos, se não aparecerem mais “Trumps !”…
Contratei Hermeto Pascoal, para o “Guimarães Jazz”, festival que eu, conjuntamente com a “Associação Convívio”, fundámos.
– Hermeto! Quero convidá-lo para um festival de jazz em Portugal, na cidade de Guimarães, onde nasceu Portugal!
– Eu vou, eu vou! Assim tipo Corea?
– Isso mesmo!
Quando o Hermeto subiu ao palco, perguntou:
– Onde está meu piano vermelho?
– Piano vermelho, retorqui…
– Estou brincando consigo! Em Berlim, toquei numa sala lindíssima e no palco, lá estava um piano vermelho, patrocinado pela Ferrari!
Antes do concerto e sabendo que ele era um bom copo, levei-o às tascas, onde se bebe vinho verde tinto, na malga.
Tive que o avisar (já meio torto) que aquela era a última tasca.
No regresso, passámos numa velha igreja. Ele pediu para entrar.
Ao avistar um órgão de pedais, pediu para tocar. O padre, ao avistar um homem, com 1,60 de altura, cabelo crescido até ao rabo e com olhos de albino, deduziu que tinha entrado o “diabo” na sua igreja.
Eu pedi se o Hermeto poderia tocar um pouquinho para nós!
– O órgão esta muito desafinado, já ninguém toca nele…
– Senhor prior. Vou tocar um Gospel, que a minha mãe cantava na igreja!
Mal acabou, disse o padre:
– O senhor, se quiser, podia vir tocar amanhã à missa das nove horas!
Voltámos ao hotel e três meninas aguardavam-no para uma entrevista ao jornal escolar. Subimos ao último andar do hotel e um piano aguardava -nos …Primeira pergunta do Hermeto:
– Toquem um pouquinho para vos ouvir
– Nós, não trouxemos as partituras…
– E vocês precisam de partituras? Eu comecei por tocar flauta e ia para a mata, tentar imitar a música dos passarinhos. Sempre toquei de ouvido e só aos trinta e seis anos aprendi a escrever e ler as bolinhas.
– Vocês quando nasceram, aprenderam primeiro a falar ou a escrever?
Então, pediu-me um folha branca e com umas linhas de pauta enormes, escreveu uma música para elas, que interpretaram à primeira vista.
No concerto, o “campeão”! Como lhe chamavam os seus músicos, entrou num choro que eu adoro “Chorinho para Ele”, a uma velocidade incrível, na altura esquecendo, que o tempo ia dobrar! Só ouvia o Ademar Espírito Santo dizer:
– Está muito rápido! Está muito rápido! Está muito rápido!
Obviamente, que só o “campeão” conseguiu dobrar o tempo, os outros músicos limitaram-se a pontuar a primeira nota de cada compasso.
De seguida, tocou uma introdução ao piano. As fortes luzes encadearam -no (albino). Parou repentinamente. E pronunciou a seguinte frase: – Me desculpa, isso é horrível! Vou repetir, para não tocar nunca mais!!! E nós a pensarmos que todas as melodias e harmonias “esquisitas” entravam nas composições dele…
Esse concerto, teve a maior audição de pianistas portugueses: André Sarbib, Miguel Braga, Zé Sarmento, Manuel Beleza e Bernardo Sassetti.