Os lambe-botas e o sucesso fabricado – Por Rosa Fonseca

                                                     “Os aduladores são a pior espécie de inimigos.”                                                                                                                    Tácito

A nossa sociedade está infestada de bajuladores. Todos os dias os vemos e sentimos, andam por aí a céu aberto.

São uma espécie em ascensão que se movimenta e bem, em vários setores públicos e privados da sociedade, com intenções dissimuladas, procurando vantagens pessoais ou manipulando os outros, o que pode causar danos mais subtis e difíceis de detetar. São os falsos e perigosos “amigos”.

Temos os lambe-botas em diversas frentes, mas vou falar dos que, na política, fazem a sua carreira ao colo do poder. São os profissionais da bajulação institucional, diria mesmo, que se comportam como cachorrinhos amestrados para garantirem um lugar ao sol. Não é bom subestimá-los, porque a sua ambição desmedida e um ego inflamado são um trampolim para altos voos.

Muitas vezes são eles que brilham no centro do palco, de microfone em punho, palmadinhas nas costas e um sorriso que não nasce da alma, mas da ganância pelo poder.

Todos já os vimos sentados nas filas da frente nos comícios, reuniões e palestras, regozijar e aplaudindo com mais entusiasmo que os outros, fazendo questão de serem vistos a concordar com tudo, mesmo que não percebam o que ali está a ser dito. Aliás, os lambe-botas da política têm a noção de que não é preciso saber muito — basta saber a quem se encostam e bajulam.

A política portuguesa está cheia destes figurantes que sonham ser ministros ou assessores e transformam os elogios ocos em moeda de troca. Entram e saem dos partidos com a mesma facilidade com que mudam de camisa: defendem com fervor, hoje, aquilo que ontem criticavam com asco. Para eles, o que importa é estar na fotografia. A ética e a consciência não são seu apanágio.

Eles proliferam no meio, como erva daninha e nem sempre são fáceis de identificar. Muitos disfarçam-se bem; ora são independentes ora conselheiros discretos. Mas sempre a usar o sabujismo como estratégia para se aproximar de políticos influentes e obter proveitos.

São perigosos e gostam de uma boa polémica, não olham a meios para atingir os seus fins — empurram para a sombra aqueles que têm ideias, que estudam, que acreditam na causa pública.

Criam redes de favores e lealdades falsas, onde a competência é secundária e o mérito uma barreira.

Essa adulação pode levar à corrupção, à falta de transparência e à tomada de decisões que não representam a vontade da maioria, prejudicando a democracia. Não podemos deixar que essa prática ponha em causa o bem-estar coletivo e inquine o processo democrático.

Há interesse em refletir sobre isto?

Talvez não… há uma cultura de elogios excessivos como forma de agradar ou manipular e os políticos, muitas vezes dependem dos apoiantes para se manterem no poder, e os artistas da bajulice podem ser peças fulcrais para consolidar esse apoio; estão lá sempre, como lapas na rocha e quando os donos do poder mudam, o lambe-botas corre atrás do novo trono, trocando convicções como quem volta a trocar de bandeirinha e não importa a cor, nem o “slogan”.

Estes são especialistas na arte de dizer o que o outro quer ouvir, desde que esse outro tenha poder, e, pior, acreditam na sua espertezazinha saloia sem darem conta que são apenas peões que se julgam reis.

A política, já por si desacreditada, torna-se cada vez mais um palco de vaidades para os sabujos.

E o povo — esse que vota, que espera, que acredita — fica com as sobras.

Oh, tristes! que trocaram a vossa dignidade por um sorriso subserviente. Que caminhos lamacentos os vossos!