Os EUA querem exportar intolerância. E nós, calados? – Por Amadeu Ricardo

Foi com estupefação – e depois com revolta – que li a notícia: os Estados Unidos, sob a batuta de Donald Trump, estão a pressionar empresas portuguesas a abandonarem os seus programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), sob a ameaça de perderem os contratos com o Governo norte-americano. Isto não é diplomacia. Isto é chantagem política no formato de imperialismo ideológico.

A embaixada dos EUA em Lisboa confirmou que enviou as cartas às empresas nacionais com contratos públicos americanos, exigindo “autocertificação” de que não promovem políticas DEI que “violem leis antidiscriminação” norte-americanas. A perversidade do argumento é grotesca: para Trump, promover diversidade é discriminatório. Uma inversão perversa que transforma a justiça social em crime, a equidade em favoritismo, e a inclusão em ameaça à “excelência individual”. A mensagem é clara: o velho sonho americano morreu; e vive-se agora o pesadelo identitário da extrema-direita.

Mas o mais grave não está no que Trump faz – ele nunca escondeu o que pensa. O mais grave é o silêncio. Onde estão os políticos portugueses? Onde está o Governo? Onde estão os partidos que enchem a boca com “valores europeus” e “direitos fundamentais”? Onde está a Europa, que exige DEI como critério de financiamento e de governo responsável? Onde estão os empresários que tanto gostam de exibir os relatórios ESG e as bandeiras arco-íris nas campanhas de marketing?

Será que ninguém tem “tomates” – sim, é mesmo isso – para responder à altura? Será que nos vendemos por contratos de telecomunicações, seguros e jardinagem na base das Lajes? É esse o preço da nossa dignidade?

É inaceitável que uma potência estrangeira seja ela qual for venha impor a empresas portuguesas uma linha ideológica que contradiz diretamente os princípios democráticos e legais da União Europeia. É inaceitável que, em nome de negócios, se aceite recuar em décadas a luta pelos direitos civis, pela representatividade e pela justiça social. E é ainda mais vergonhoso que o façamos calados.

A Europa tem de responder – e tem de responder agora. Se há princípios que não se negociam, este é um deles. A chantagem política dos EUA não pode passar incólume. A submissão silenciosa é, em si mesma, uma forma de cumplicidade.

As empresas portuguesas têm o dever de resistir, mesmo sob pressão. E se não o fizerem sozinhas, que contem com o seu governo. Que contem com os tribunais. Que contem com os cidadãos. Porque, quando um país estrangeiro exige que reneguemos os nossos valores, não está só a atacar políticas corporativas – está a atacar a própria soberania.
Hoje, são as políticas de diversidade. Amanhã, o que será? O direito à greve? A liberdade de expressão? A independência judicial?

A história julgará quem ficou em silêncio. Eu não ficarei.