Os dias desancorados dos nossos vizinhos – Por Rosa Fonseca

Procuro estar atenta aos meus vizinhos. Cumprimento e sorrio-lhes. Quando estão à janela, dou-lhes uma palavrinha. Aceno-lhes. Sei o quão importantes são os meus/nossos gestos. É um carinho que lhes cai bem e alimenta os seus dias mais cinzentos. Conforta-os saber que me preocupo com eles. Também sei que um dia serei eu à janela e à espera…
Hoje trago-vos a minha vizinha do prédio em frente. Aquela a quem aceno logo pela manhã.
Sempre lhe reconheci uma vida pautada pela força e alegria. Trabalhou muitos anos, com dedicação, na escola do bairro; cuidava das crianças que lhe eram confiadas com amor e dedicação; amparava-os nas quedas e beijava os seus joelhos esfolados. Chamavam-lhe “Avó”. Dizia amiudadamente que era feliz. Passou ali os melhores anos da sua vida.
Mas um dia chegou a hora de se despedir e fizeram-lhe uma festa. A “Avó” veio descansar.
Passado algum tempo viu-se sozinha. Os filhos e os netos que viviam bem perto mudaram-se para longe e escasseavam as visitas. A tranquilidade que imaginara esfumara-se. A “Avó” ficou cada vez mais sozinha, a casa gritava agora por risos e alegria. Com o passar dos anos, ela começou a sentir o peso da solidão e do abandono. Entendia que todos tinham que seguir as suas vidas.
Das conversas que íamos tendo à janela, nos dias soalheiros de primavera, recordo de me ter dito que não se sentia útil ou que ninguém já se lembrava dela. Custava-me saber que esperava por alguém que a visitasse, que lhe trouxesse um pouco de atenção e afeto. Talvez os vizinhos ao passarem por aquela janela fossem uma réstia de luz nos dias acabrunhados.
Apesar de tudo, a minha vizinha nunca perdeu a esperança de abraços e sorrisos.
E vem aquele dia em que alguém se interessa pela tristeza e solidão da “Avó” do bairro. Alguém que se condoeu com o seu isolamento e olhar contristado e decidiu aproximar-se.
Encetou esforços e levou-a para um grupo de outras pessoas na mesma situação; aí encontrou outros rostos e risos, alegrias e tranquilidade.
Se esta história nos alerta para importância de cuidar, de valorizar nossos idosos, de mostrar que eles ainda têm muito a oferecer e que merecem amor, respeito e atenção, também nos põe frente a frente com a disfunção social em que vivemos e com um futuro próximo.
O que faz toda a diferença é encararmos a velhice como uma fase da vida que deve ser vivida com dignidade e carinho; valorizamos as suas experiências, histórias e sabedoria; adotarmos atitudes simples, mas valiosas, mostrando-lhes que são importantes e lembrados.
Importa, pois, fortalecer, consciencializar e sensibilizar a sociedade sobre a importância de cuidar e valorizar os idosos, combatendo o preconceito, a negligência e a inércia.
Um gesto de carinho, uma conversa ou um sorriso podem fazer toda a diferença na vida de alguém que se sente só.
Esta é uma história comum a muitos vizinhos, que, por diferentes razões, vivem o abandono na velhice. Precisamos de olhar a janela do outro.
A “Avó” do bairro já me acena com a felicidade de outrora.