O tédio aguarda o pó e as teias

As teias aparecem quando nada atravessa. O tédio entra devagar, observa e aprende a casa. Ao fim de algum tempo já conhece os cantos onde o movimento costumava passar e deixou de passar. O primeiro sinal é o pó. Um pó discreto, competente, que se acumula em objetos parados e lhes dá uma aparência pensativa. Demasiado pensativa.
O tédio é um estado organizado. Tem método, rotina e uma disciplina quase admirável. Talvez admirável seja excessivo. Os dias repetem-se com variações mínimas, suficientes para ocupar espaço, insuficientes para produzir acontecimento. O resultado deposita-se. Pó sobre ideias. Pó sobre intenções. Depois perde-se a conta. As coisas continuam ali, inteiras, fora de uso imediato, como uma cadeira ligeiramente fora do sítio que ninguém volta a endireitar.
Durante semanas confundi tédio com descanso. Descansar implica retorno. O tédio oferece permanência. Uma sala de espera sem balcão, sem promessa de chamada. Aguarda-se por algo que talvez já tenha passado. Em À espera de Godot, de Samuel Beckett, espera-se sem saber porquê. Mesmo assim, fica-se. Levanta-se. Senta-se outra vez. A lâmpada pisca. Continua-se.
As teias ajudam a ler o estado. Surgem em casas habitadas, em corpos funcionais, em vidas ativas suspensas por tempo indeterminado. O pó confirma. Um objeto parado, sem manutenção, ganha pó. Uma vida em pausa prolongada também. Tudo inteiro. Tudo quieto.
O humor aparece nas fendas. Um cérebro rápido, cheio de ideias, dedicado à administração diária do irrelevante. Energia suficiente para manter dias vazios em funcionamento regular. Como um aparelho esquecido na tomada. Um esforço contínuo. Sem efeito visível.
Às vezes penso que afastar o tédio começa por um gesto pequeno demais para merecer nome. Passar um pano. Mudar um objeto de lugar. Abrir uma janela sem esperar que entre nada em particular. O pó resiste pouco. As teias menos ainda. O resto talvez venha depois, ou talvez não.
As teias ficam.
O pó também.