O Robô, o Imigrante e o Estado: Quem é que paga o café

Passei um dia destes por uma pastelaria que ostentava um cartaz escrito à mão: “Fechado por falta de pessoal.” Quando finalmente encontrei um sítio para beber um café, li nas últimas notícias algo sobre o renovado ímpeto europeu em taxar robôs e inteligência artificial para “proteger o emprego.” Se a ironia pagasse impostos, o défice de Portugal estava resolvido antes do almoço.

O paradoxo é delicioso, se não fosse trágico. Estamos a tentar criar um imposto para punir a tecnologia por tirar empregos que ninguém quer ocupar. É como culpar o extintor pelo incêndio enquanto o pirómano ainda tem o isqueiro na mão.

Como empresário de automação, vejo isto no chão de fábrica: a máquina não entra para expulsar o operário. Entra porque o operário não apareceu na segunda-feira passada, nem na anterior, nem na outra. A máquina não é o predador, é o substituto que chegou depois do abandono.

Criámos uma geração que aspira a ser “Creative Brand Evangelist”, enquanto olha para um torno mecânico como se fosse um artefacto de tortura medieval. Não é crítica, é constatação: as aspirações mudaram e isso é legítimo. O problema é que o lixo continua a precisar de ser despejado, as linhas de produção continuam a precisar de operadores e o armazém frigorífico não aceita propósito como método de pagamento.

E então aparece a imigração, que é o penso rápido que toda a gente usa e ninguém quer discutir com honestidade. Acredito na liberdade de movimento e como gestor, acredito em logística. E as duas coisas dizem-me o mesmo: importar pessoas apenas para tapar os buracos que nos recusámos a automatizar não é política de integração, é adiamento da modernização com custos humanos incluídos. As pessoas merecem mais do que serem o plano B de uma economia que não se quis adaptar.

O resultado desta equação é previsível: um país de serviços de baixo valor que tem medo de robôs, mas não tem mãos para servir um café.

Taxar um robô é, no fundo, taxar a produtividade. Se instalo uma célula robotizada que faz o trabalho de quatro pessoas que não consegui contratar, o Estado quer que pague a contribuição social dessas quatro pessoas inexistentes. É uma lógica admirável na sua criatividade: punir quem investe em tecnologia para compensar a falha de um sistema educativo que produz licenciados sem saída profissional e a falha de um sistema de segurança social que é, com todo o respeito, um esquema em pirâmide à espera de demografia.

O argumento social esconde-se atrás de palavras grandes como “direitos, inclusão, proteção”, mas ignora o dever básico de qualquer economia: ser eficiente. Sem eficiência, não há impostos. Sem impostos, o Estado Social é apenas um PowerPoint bonito que não paga consultas no SNS.

A automação e a imigração qualificada são as duas faces da mesma moeda de sobrevivência. Precisamos de máquinas para o que é repetitivo e perigoso. E precisamos de pessoas, integradas a sério, não apenas toleradas, para o que exige humanidade e discernimento. Não são alternativas, são complementos.

O grande mal-entendido da política atual é achar que podemos manter um estilo de vida de primeiro mundo com uma mentalidade do século XIX. Queremos o luxo da tecnologia e o conforto moral de a culpar por todos os nossos males. Queremos imigração quando precisamos de braços, mas não queremos pensar em como a integrar de verdade. E a verdade incómoda é que a integração, quando existe, raramente é só um problema do lado de cá!

Enquanto continuarmos a partir da conclusão ideológica para depois arranjar os factos que lhe convêm, vamos continuar a ler cartazes de “Fechado por falta de pessoal” em ruas rodeadas de gente desempregada e de robôs desligados. A economia funciona como a robótica: se a lógica estiver errada, o braço não se mexe. E o café, esse, vai continuar por servir, a não ser que alguém, finalmente, decida olhar para o problema sem ideologia à frente dos olhos.