O que o amor me ensinou | Cheio de vazios e ainda assim inteiro

Outro dia dei por mim a regar uma planta às sete da manhã, ainda de pijama, a pensar numa pessoa que já não faz parte da minha vida há anos. Achei estranho. A água a cair na terra e eu ali, a lembrar-me de um riso antigo. Foi aí que percebi que continuo a amar pessoas que já seguiram caminho.

Não sei amar pouco.

Durante muito tempo pensei que isso era excesso. Que devia aprender a desligar como vejo outros fazerem. Fechar capítulos com eficiência. Em mim as coisas ficam. Mudam de forma, mudam de lugar, mas ficam.
A paixão já me pareceu uma doença. O corpo acelera, o mundo estreita, tudo ganha intensidade exagerada. Hoje vejo que essa febre tem função. Aproxima. Depois abranda. E quando abranda revela algo mais profundo. Nem sempre é recíproco na mesma medida. Nem sempre dura da mesma maneira. Mas deixa verdade.
O que pesa às vezes não é sofrimento. É uma saudade quente. Um espaço interno que lembra que houve encontro real. Prefiro estar cheio desses vazios do que intacto. Prefiro carregar marcas a viver liso.
Aprendi que deixar alguém partir também pode ser amor. Houve momentos em que percebi que a felicidade do outro passava por um caminho onde eu não cabia. Isso rasga por dentro. Ainda rasga em dias mais frágeis. Mas há uma claridade em saber que amar não é reter.
O amor que conheci na infância ensinou-me permanência. A vida adulta ensinou-me limites. Esperei durante anos encontrar alguém que amasse com a mesma continuidade com que amo. Hoje sei que cada pessoa tem uma arquitetura diferente. Alguns amam por ciclos. Outros por intensidade. Eu amo por permanência.
Isso já me trouxe frustração. Já me fez sentir desajuste. Ainda tenho dias em que a memória pesa mais do que aquece. Ainda espero declarações claras. Ainda observo constância no tempo. Sou feito dessas contradições.
O amor nunca deixou o meu coração vazio. Ele está sempre pronto. Pronto para continuar, pronto para crescer, pronto para integrar mais alguém sem apagar quem já existiu.
Aprendi que felicidade não é ausência de melancolia. É capacidade de sustentar ambas. Presença e ausência convivem dentro de mim como luz e sombra ao fim da tarde.
Não sei amar de outra forma. Amo com cuidado agora. Com contorno. Como quem rega uma planta sabendo que precisa de luz e espaço.
E continuo.