“O que Carregamos?” – Rui Spranger leva peça de inclusão social ao Teatro S. João no Porto

A música original é de Rui David e Sofia Teixeira, desenho de luz de Rui Damas, assistência de encenação de Alessi Bombaci, adereços de Letícia Oliveira, assistência de figurinos de Maria Alice Pereira, apoio técnico social de Daniela Couceiro, direção de cena de Luís Ferreira e Pedro Santos, direção de produção de Sofia Teixeira e fotografia de Paulo Pimenta.

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Alessia Bombaci, Ana Silva, António Reis, Artur Fontes, Cândida Conceição, Carlos Rodrigues, Daniela Couceiro, Miguel Matos, Emílio Costa, Joana Abrantes, Júlio Mota, Maria Alice Pereira, Maria Beatriz Reis, Paula Cruz, Pedro Esquível, Renato Oliveira e Tiago Ribeiro, são os atores. Na voz-off, estiveram Jorge Soares e Vilma Ranito.

Uma produção da Apuro – Associação Cultural e Filantrópica.

É importante escrever sobre este grupo de atores que pertencem ao grupo teatral “Do Lado de Fora”. A mudança e a inclusão social foram os grandes objetivos que levaram à criação deste grupo teatral. Não se trata apenas de criar mais um grupo de teatro, mas sim, fomentar que as pessoas em situação de exclusão social, sem-abrigo, pudessem, de alguma forma, encontrar a dignidade que lhe é devida, participando ativamente neste projeto. Existe uma sociedade que se usou dessas pessoas, dos seus talentos e capacidades laborais e agora as esqueceu…

Uma peça de teatro sem palavras?… Fez-me lembrar…Ah! Já sei! “O Baile”, um filme de 1983, dirigido por Ettore Scola, uma adaptação para cinema do espetáculo que o “Théatre du Campagnol”, com encenação de Jean-Claude Penchenat. Quando saí do cinema, o meu colega interpelou-me: – Já viste um filme em que os atores não falam…Só aí me dei conta que afinal não existiram diálogos durante o filme…

Nesta peça o único que eu me tenha dado conta que dialogou um pouco, foi o Emílio que parecia o dono do teatro! A música assumiu uma papel muito importante, pois estava sempre a introduzir, a acompanhar, ou a finalizar as ações em palco. O Rui David, já o conheço há muitos anos, durante mais de quinze anos, foi a voz que iniciou as noites no B Flat Jazz Club”. Agora, a Sónia Teixeira, foi a grande surpresa da noite! Tocar clarinete e saxofone é comum, mas também tocar trompete e baixo elétrico, aí sim, tem que ser uma mulher dos sete instrumentos!

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Cada ator transporta uma mala, de onde retira o seu traje e a malas, acompanham toda a peça! Alguma correria e alguns grunhidos saem dos atores, depois vem a rábula bem conseguida, do ator meio-perdido que teima em entrar, mas que o nosso Emílio o informa que a entrada do ator, só se efetua no quarto ato! Curiosamente no aplauso final quando encerra a peça, coloca-se à frente de todos os demais atores, para receber um aplauso “imerecido”…

Imaginemos que a nossa experiência de vida coubesse numa mala, quais as recordações de nós, dos nossos afetos e perturbações, poderíamos transportar?

Rui Spranger, conseguiu reunir pessoas em situação de exclusão social, alguns profissionais da cultura e outros tantos atores amadores, mas com responsabilidades e desempenhos iguais.

Quando olhamos o quotidiano, o nosso quotidiano, muitas vezes sem objetivos ou poucos horizontes, o que nos distingue uns dos outros?…Qual a “bagagem” que nos confere realmente a identidade…Será que, algumas vezes, transportamos a nossa mala cheia de nadas?

A atual sociedade, obriga-nos constantemente a mudar de situações, algumas vezes sem o esperarmos. Tudo se transforma e nos transforma de tal forma que da mesma forma que um dia nos Açores, pode estar enevoado, chover e fazer sol, a nossa vida também poderá em meses, semanas ou até dias, passar de um estado de graça, para um estado de adversidade ou infortúnio…Um dia somos conhecidos e acarinhados e no outro dia, somos esquecidos e até há quem simplesmente, nos vire a cara…Muitas vezes o que “carregamos” nas nossas vidas nos resume e nos estipula, nos pode acrescentar, ou simplesmente menoscabar.

Finalizada a peça, com ovação de pé, seguiu-se um excelente cocktail, servindo de hiato ao que se passaria a seguir. Um debate entre pessoas de vários quadrantes, relacionadas com o tema principal!

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Houve duas pequenas intervenções a introduzir a palestra que se seguiu, do Presidente do Concelho de Administração do TNSJ, Pedro Sobrado e do Vereador do Pelouro da Educação e Coesão Social, Fernando Paulo.

A primeira intervenção, coube ao professor catedrático Álvaro Domingues – “Numa época tão acelerada e perigosa que tanta desconfiança como a que estamos a viver atualmente, não temos conseguido resolver os assuntos sociais e são muitos, com que nos debatemos.”

O Rui que durante vários anos foi um sem-abrigo tomou a palavra de seguida e referiu, que “para quem vive na rua, os principais aliados são os vizinhos que ainda vão facultando comida e algumas vezes hipóteses de banhos…A comunicação entre sem-abrigos, é quase inexistente…”. Alertou ainda as autoridades policiais e políticas, “para o apoio que possam vir a ter no futuro, uma maior compreensão e uma maior atenção, ao que na verdade as pessoas necessitam.”

Seguiu-se a diretora dos Albergues do Porto, Carmo Fernandes.

“Existem 13.000 pessoas, a nível nacional que estão na situação de sem-abrigo em Portugal. Uma situação difícil de resolver que os alojamentos de seis meses não conseguem ser a solução, já que ela depende de utente para utente…o tempo de reabilitação tem que ser o necessário e não o estipulado. São pessoas que perderam os laços familiares e os amigos e que estão literalmente sós!”

O autor desta peça, interveio de seguida. Rui Spranger criou um espetáculo intitulado “E”, que serviu de “arranque” a todo este processo de integração e de inclusão social.

O caso mais eminente é o de Emílio Costa, um homem que viveu com bastantes dificuldades na vida e que atualmente, no meu entender, é o melhor ator do grupo de teatro “O Lado de Fora”.

“Todos crescemos com as diferenças e as experiências de vida e temos que trabalhar a dignidade e o respeito, dar oportunidades a todos, todos são bem recebidos no nosso grupo teatral. É para isso que existimos!” proferiu Spranger.

Por último, a palavra foi dada a Maria Alice, uma atriz da companhia que  não foi uma situação de sem-abrigo, mas uma situação de sem-lar…O falecimento do seu pai, marcou-a profundamente e a aproximação com a companhia de teatro, de alguma forma, libertou-a da extrema solidão onde se encontrava. “No início, o entrar no palco e ter que me exibir foi muito difícil para mim. Dediquei-me a criar alguns cenários e figurinos o que veio realçar uma das qualidades que ainda preservo – o desenho!”, referiu.

O Cidadão compromete-se a ser mais uma voz a juntar-se a este problema social, em que todos, mesmo todos, temos a nossa cota parte de responsabilidade.