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Segunda-feira, Maio 27, 2024

O Princípio (Opinião)

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Onofre Varela
Onofre Varela
Jornalista/Cartunista

Resumo Biográfico de Onofre Varela
Onofre Varela (Jornalista-Cartunista) C.P. 1249 A

Onofre Varela nasceu no Porto em 1944 e estudou Pintura na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis (Porto) em aulas nocturnas com o estatuto de trabalhador-estudante.

Iniciou-se no mundo do trabalho com 13 anos, como aprendiz de tipógrafo. Em 1960 era aprendiz de desenho litográfico (desenho à pena sobre pedra calcária), e depois foi maquetista (designer gráfico) em litografias, antes de ser criativo gráfico em Agências de Publicidade.

Aos 20 anos cumpriu o serviço militar obrigatório e foi enviado para a Guerra Colonial no norte de Angola. Colaborou com a revista Notícia publicada em Luanda e em Lisboa, fazendo Banda Desenhada para o suplemento infantil Pica-Pau.

Colaborou com o jornal O Primeiro de Janeiro em 1969 e a partir daí trabalhou em todos os jornais do Porto, terminando a sua carreira de jornalista-gráfico (cartune, caricatura e ilustração) no Jornal de Notícias no ano 2000, quando foi convidado para a moderna situação de “reformado antecipadamente”.

Entretanto, colaborou com a RTP no programa da manhã “Às Dez” (1986-88), fazendo desenhos em directo na informação meteorológica e em programas infantis e ilustrou manuais escolares para a Porto Editora.

Após a reforma fez teatro no palco do Sá da Bandeira (Porto), estreando-se na revista 2001 – Odisseia do Carago; e uma formação de actor no TEP (Teatro Experimental do Porto).

Dedicou-se à escrita tendo publicado oito livros, entre Humor, Biografia e Ensaio, mais um de Banda Desenhada.

Colabora com três jornais regionais, desenhando e escrevendo.

 

O PRINCÍPIO – Por Onofre Varela

Convidado a participar n’O Cidadão e aceite o convite, decidi começar por me apresentar aos leitores, esperando conseguir alguma “intimidade” convosco, como se estivéssemos à mesa do café a dizer mal desta porcaria toda e a estabelecer alguma empatia convidativa para depois me lerem com algum agrado.

Quando eu nasci era Setembro, estávamos em 1944, e o conflito mundial que durava há cinco anos terminaria em Maio do ano seguinte… mas ninguém o sabia. A minha chegada ao mundo foi uma pequena tragédia. Não fui um filho escolhido… resultei de um acidente de percurso que surgiu na vida de um modesto casal, tal como um fiscal da ASAE aparece na feira dos ciganos para dar cabo da vida aos feirantes.


Apareci na família como um intruso na vida de um casal pobre com dificuldades de angariar comida para todos os dias. Dificuldades acrescidas pela guerra que, não estando entrincheirada em Portugal, andava por aí, na mente das pessoas e sentida na vida de todos os dias. Para ajudar à tragédia, nasci rapaz… coisa que eles já tinham!… Uma menina é que faria a alegria da família, porque um casal fica sempre bem em qualquer lar! Se fossemos cromos de caderneta, eles podiam trocar o repetido por uma menina… mas com crianças não pode ser!…

Quatro anos depois nasceu a minha irmã!… Uma menina linda como o Sol que fez as delícias dos pais babados à espera de terem uma filhinha. Por essa altura o meu irmão saía de casa manhã cedo para a escola primária, o meu pai entrava em casa à mesma hora, vindo da padaria onde trabalhara toda a noite, para dormir até meio da tarde; a minha irmã dormia no berço… e eu obrigava-me a ter brincadeiras silenciosas para não incomodar o pai nem acordar a bebé!

Esta situação foi a minha primeira preocupação de vida a inaugurar o meu “pensómetro”, obrigando-me ao exercício de não incomodar o silêncio, e de pensar sobre as realidades que faziam o início da minha curtíssima vida de quatro anos.

Para ocupar o tempo desenhava com um lápis que a minha mãe me dava para estar entretido. Como suporte para os desenhos usava papelões que eram guardados atrás da porta da cozinha e que serviam para fazer palmilhas na “indústria-caseira” de chinelos em que a minha mãe ocupava os dias para ajudar o orçamento, porque o ordenado de um padeiro é mais parecido (em tamanho) com um molete do que com um cacete.

Quando a minha mãe precisava de sair, ir à mercearia ou comprar linhas e agulhas para a máquina de costura Singer, deixava-me com lápis e cartões, sentado no chão da cozinha, com a certeza de que eu não faria barulho, não acordaria o pai nem a irmã, nem sairia do sítio!… Ora, como é bom de ver, um rapazinho com estes princípios tão sossegadinhos, jamais daria em líder político ou em jogador de futebol.

Eu não só desenhava. Também pensava… porque o pensamento é a máquina que guia a mão; sem ele não há desenho. Com os mimos de pai e mãe mais focados na bebé e nos estudos do filho mais velho que já frequentava a escola primária, eu fiquei ali, meio esquecido, e obriguei-me a enfrentar a vida com alguma independência sem as atenções de pai e mãe que não me pertenciam a tempo inteiro. Curiosamente, na maioria dos desenhos que fazia como brincadeira maior, representava rostos de homem… nunca desenhava mulheres!…

Quando teria cerca de 16 ou 17 anos, dei comigo a pensar no porquê de, em miúdo, apenas desenhar machos… e comecei a duvidar da minha virilidade!… Dúvida preocupante… mas que não me tirou o sono!…

Mercê daquela aprendizagem do acto de pensar que fiz em miúdo muito tenrinho, rapidamente cheguei a uma conclusão que me sossegou o espírito sem precisar de consultar um psicólogo… aquilo era uma procura do pai, que raramente via. Apenas lhe “botava” os olhinhos em cima a meio da tarde, quando ele se levantava para almoçar, e logo partia para a padaria de onde só regressava ao nascer do Sol do dia seguinte. Aquela refeição ao meio da tarde era o único momento do dia em que eu via o meu pai.

Esta “brilhantíssima” conclusão também prova o meu auto-didactismo que sempre me orientou na vida, sem precisar de frequentar grandes estudos académicos, para além da aprendizagem que fiz na Faculdade da Vida que me talhou assim… exactamente como sou… estão a ver?…

 

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