O Princípio da Insanidade

Daqui a muitos anos, quando celebrarem a minha morte, os críticos vão descrever os meus textos como o retrato fiel dos infelizes que, por algum masoquismo oculto, decidiram passar a vida neste território, cercados por incompetência e vigarice. Dirão, com aquele ar rebuscado de quem sabe tudo, que estas crónicas são a continuação de outros cronistas de renome. Logo eu, que nunca os li — ao menos não me podem acusar de plágio!
A verdade é que ser português é meio caminho andado para a loucura; um caminho sem retorno, porque este povo (está nos livros, não o inventei eu) não se governa, nem se deixa governar. Somos uma sociedade infectada pelas redes sociais, essa espécie de diário público onde a vida se despe em fotos e vídeos. E mesmo com a prova dos factos à frente — estilo vídeo-árbitro — continua a haver discussões, mentiras e depoimentos alterados à descarada. Não há contraditório porque, simplesmente, todos se contradizem. É o sinal puro do elevado grau de estupidez humana…
Lisboa acolhe o edifício mais emblemático da nossa democracia. Se pensaram no Jardim Zoológico, o meu aplauso de pé! Infelizmente, os senhores de fato e gravata que lá moram não estão à altura do peso que carregam. Para memória futura: em 2025, num único mês, tivemos duas moções de censura e uma de confiança. Pelo meio, uma data de deputados portou-se como uma turma de miúdos insubordinados e birrentos.
A Assembleia transformou-se num “Portugal dos Pequenitos” e deu-se uma troca de argumentos vazios que em nada dignificou o regime. Atropelos à Constituição e, arrisco dizer, muita falta de educação. Mais do que o “fananço” das malas, os insultos à deputada cega ou as queixinhas constantes ao Presidente da Assembleia, o que fica é a imagem de uma irresponsabilidade total.
Tudo isto porque o Primeiro-ministro tem (ou teve) uma empresa familiar com clientes mistério. Porque pagou um apartamento a pronto e não avisou ninguém. E porque, segundo a oposição, não esclareceu o que tinha a esclarecer — mesmo que o tema tenha sido mastigado durante dias a fio. Se não perceberam nada, não faz mal: voltem a ler o título.