O papel do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso na vida cultural de Chaves

O O Cidadão entrevistou Laura Afonso após o encerramento temporário do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), num momento em que se discutem modelos de gestão, presença pública e funções culturais do equipamento. A conversa permitiu clarificar práticas, ausências e expetativas relacionadas com o museu e com o papel que desempenha na região de Chaves e no Alto Tâmega.

O Cidadão (OC) – Como avalia o impacto do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA) na dinamização cultural da região do Alto Tâmega e Barroso?
Laura Afonso (LA) – Penso que o impacto tem sido muito importante para dar a conhecer toda esta região de Alto Tâmega e Barroso. A maioria dos visitantes são de fora do concelho de Chaves e muitos vem com a intenção de visitar o Museu e depois visitam a região. As escolas do Alto Tâmega visitam o Museu e muitos alunos a primeira vez que visitam um Museu.
(OC) – Existem estatísticas que possam sugerir que o número de turistas em Chaves caiu devido ao recente encerramento do museu, ou que o dito encerramento provocou um prejuízo económico na cidade?
(LA) – As estatísticas relativas ao número de visitantes do Museu existem embora não sejam públicas. No seu computo geral não posso falar pois não conheço. A verdade é que quando o museu não apresentava exposições de Nadir o número de visitantes caiu. Tanto a ausência de exposições de Nadir como o encerramento desencadearam um número grande de reclamações. Estas decisões são da responsabilidade da Câmara Municipal me nunca nos ouviram ou nos pediram qualquer parecer.

(OC) – Já foi alguma vez colocada em cima da mesa, a hipótese de alargar o MACNA, de modo a que o encerramento de uma exposição não condicione a abertura do museu?
(LA) – A mudança de exposições não obriga ao encerramento do Museu, pois, já se mudaram exposições sem encerrar o MACNA, como disse a decisão é da responsabilidade da Câmara Municipal.
(OC) – Qual é a razão de o MACNA haver interrompido as oficinas que realizava a até relativamente pouco tempo? Existem planos para o museu voltar a realizar as ditas oficinas?
(LA) – Essas decisões são da CMC e não tenho conhecimento algum sobre o assunto para me pronunciar.
(OC) – Considera-se capaz de comparar como era Chaves e arredores antes e depois do MACNA, em termos de turismo cultural e oferta museológica?
(LA) – A qualidade das cidades avalia-se pelos seus equipamentos culturais. O Museu Nadir Afonso representa a contemporaneidade, o futuro e é hoje uma imagem da cidade de Chaves, e se Universidades de vários pontos do mundo visitaram Chaves, se muitos portugueses vindos de toda a parte, visitaram pela primeira vez Chaves é porque existe o edificio magnífico e a obra ímpar de Nadir.
A comunicação dirigida aos flavienses apresenta o Museu como fonte de despesas públicas e não como uma mais-valia capaz de alavancar a cidade , um serviço público.

A obra de Nadir, que traz público ao museu deveria ser valorizada pelo município. A verdade é que desde que o trabalho de Nadir deixou de ter presença contínua no Museu o número de visitantes caiu drasticamente e agora é necessário um grande trabalho para voltar a trazer esse público de volta. Sem um equipa técnica motivada e conhecedora do funcionamento de um museu não se ultrapassa o amadorismo vigente. Não há em Portugal nenhum museu que dê lucro e todos funcionam com dinheiros públicos e dos mecenas, mas há outros ganhos indiretos como estadias, restauração e outros consumos.
Chaves tem muito potencial para se tornar um destino cultural de referência: é uma cidade milenar, com, ponte romana, termas romanas, castelo, muralha medieval e muralha seiscentista, dois fortes, a igreja da Misericórdia, uma joia do barroco, o palácio dos duques de Bragança com o museu de arqueologia, o Museu Nadir Afonso com a sua contemporaneidade, o edifício da panificadora, um dos 100 edifícios do século XX assinalado pela ordem dos arquitetos e o Museu Nadir Afonso.
Quantas cidades reúnem património de tão grande relevância?
(OC) – O que pode, na sua perspetiva, explicar que, apesar de possuir uma história extremamente rica, o concelho de Chaves careça de uma oferta museológica diversificada e dinâmica?
(LA) – Talvez porque a cultura não é considerada prioritária. Os museus são serviço público e são as instituições que melhor a retratam.
(OC) – Possui conhecimento se o Nadir Afonso deixou algo escrito ou documentado, relativamente à sua opinião sobre a situação dos museus em Chaves? Caso não, é capaz de dizer qual era a opinião do mesmo relativamente a esse tema?
(LA) – Nadir apenas gostaria que o Museu fosse um centro de investigação e divulgação não só do seu trabalho como das novas ideias estéticas. Nadir dizia que o homem que foi à Lua, que fez invenções incríveis a nível da estética ainda está num estado muito incipiente.

(OC) – Como avalia o investimento que tanto a câmara quanto o governo central realizam no MACNA? Considera o dito investimento satisfatório para as necessidades do mesmo?
(LA) – O edifício da Fundação Nadir Afonso foi financiado em 85% de Fundos Europeus. O investimento foi bem feito e dignifica muito a cidade de Chaves. A gestão e a forma com o município encara o museu é outro assunto. Pessoas da cultura e ligados à museologia cobiçam tão belo edifício e qualquer localidade deveria ter orgulho não só no Museu como na obra de Nadir Afonso. Repare, em qualquer parte do mundo a obra de Nadir é reconhecível, é original, criativa enquanto a maioria dos artistas limitam-se a reproduzir modelos existentes.
(OC) – Como caracteriza as visitas as visitas guiadas ao MACNA, em termos de público majoritário?
(LA) – O MACNA não tem o serviço de visitas guiadas ou qualquer serviço educativo. Quando os visitantes, principalmente grupos me solicita faço visitas guiadas e gratuitas.
(OC) – Já houve alguma visita guiada ao MACNA de âmbito internacional (p.ex.: uma escola ou faculdade de outro país à qual decidiu realizar uma visita ao MACNA)?
(LA) – Logo a seguir à abertura houve visitas de várias Universidades estrangeiras: de Espanha, da Suíça, da Áustria, da Suécia, da França, da Coreia do Sul e evidentemente de Portugal, do Porto, Lisboa e Coimbra. Já passou pelo Museu Nadir Afonso uma equipa do Art Instiut de Chicago e a Pritzer de Arquitetura Segima.
A Câmara Municipal como não disponha do serviço visitas guiadas não nos passava a informação e visitas de Universidades de referência deixaram de aparecer. Houve uma Universidade do Japão que se propôs vir a Chaves, passei a informação a edilidade que não lhes respondeu. No Museu Nadir Afonso toda a visita de grupo tem que ser autorizada pelo Presidente da Câmara, pasme-se!
(OC) – Considera satisfatório o número de visitantes do MACNA os quais são flavienses ou residentes em Chaves? Se não, o que pode, na sua perspetiva, ser feito para incentivar uma maior presença da população local?
(LA) – Os flavienses residentes, para grande pena minha, por norma não visitam o Museu, mais facilmente, aqueles que vivem fora, vêm ao Museu. O MACNA não tem uma programação nem qualquer outro serviço inerente aos museus, não tem atividades, funciona apenas como lugar onde se fazem exposições. Ora o mais difícil é “trabalhar” as exposições!
(OC) – Considera que o MACNA possa estar a apoiar o projeto da EUROCIDADE, por meio de residentes ou turistas em Verín que vão a Chaves com o objetivo de ver o museu? Existem dados estatísticos quanto a isso?
Não temos dados para poder dar uma opinião! Aos visitantes, na receção, é-lhes perguntado qual a cidade ou país de onde vem, mas a CMC não partilha a informação.
A entrevista revela sobretudo o grande potencial do MACNA e a forma como o seu futuro pode ser fortalecido. As reflexões de Laura Afonso realçam a importância da continuidade, da programação e dos serviços educativos para reforçar o papel do museu e aprofundar a relação com a cidade, com os visitantes e com a região transfronteiriça.
OC/DL