Durante décadas, fomos educados a ter medo do comunismo.
Era o grande fantasma do século XX: diziam-nos que, se chegasse, perderíamos as casas, as poupanças, os bens conquistados com tanto esforço. Que trabalharíamos como escravos por salários miseráveis, sem futuro e sem liberdade.
Esse medo foi cultivado como um espantalho. Serviu de justificação para aceitar o capitalismo como o único caminho possível, quase como uma lei da natureza.
Mas hoje olho à minha volta e pergunto: afinal, onde está esse medo do comunismo?
Porque aquilo que vejo não é o triunfo da liberdade prometida pelo capitalismo. O que vejo são famílias inteiras a trabalhar de sol a sol e mesmo assim sem conseguir pagar a renda. Vejo jovens qualificados, cheios de talento, condenados a contratos precários e a adiar projetos de vida, imigrar. Vejo as casas a serem tratadas como meros ativos de especulação em vez de lares.
Tudo aquilo que nos avisaram que poderia acontecer com o comunismo… está a acontecer diante de nós, sob o capitalismo.
E digo-o com clareza: não sou comunista, nunca fui. Mas não aceito que esta versão selvagem e desigual do capitalismo seja apresentada como a única opção.
A retórica gasta dos EUA
Se olharmos para o plano internacional, a manipulação é ainda mais evidente. A guerra na Ucrânia foi apresentada como uma luta pela democracia, mas tornou-se, na prática, numa guerra por procuração, alimentada pelos Estados Unidos e pela sua poderosa indústria de armamento. Quem paga a fatura são os ucranianos, com vidas, sangue e destruição, enquanto os grandes vencedores são as empresas que lucram com o conflito.
Em Gaza, a tragédia, não é tragédia é GENOCÍDIO, é ainda mais brutal: milhares de civis mortos, bairros arrasados, um povo encurralado sem saída. E, mais uma vez, Washington surge não como mediador, mas como cúmplice. Financia Israel, bloqueia resoluções de paz nas Nações Unidas e fecha os olhos ao massacre. Aqui não e só Washington, é o resto do MUNDO. Se fosse outro país, já estaria sob um regime severo de sanções.
A lista é longa. O Iraque foi invadido com base em mentiras. O Afeganistão esteve ocupado durante vinte anos em nome de uma “libertação” que terminou num caos total. Na Síria, fomentaram guerras por procuração. E na América Latina, apoiaram golpes de estado sempre que um governo ousou contrariar os seus interesses económicos.
E chegamos à Venezuela.
Aqui, a retórica dos Estados Unidos é quase caricata. Em nome da “defesa da democracia”, repetem um discurso gasto, hipócrita e cínico. Impõem sanções que estrangulam uma economia inteira, não tanto para derrubar um governo incómodo, mas para assegurar o controlo sobre os recursos estratégicos. PETRÓLEO.
Mas o problema não acaba na Venezuela. As tarifas e barreiras comerciais transformaram-se numa arma global. Washington já não escolhe alvos: aplica medidas punitivas ao mundo inteiro. Aliados, parceiros, amigos de longa data — ninguém escapa. É o retrato de um império moribundo que já não convence pela diplomacia, mas que vai sobrevivendo através da chantagem económica.
E a verdade é esta: 90% das desgraças do mundo não nasceram do comunismo. Nasceram da manipulação capitalista, da obsessão pelo lucro e da sede de poder geopolítico.
Um caminho alternativo: a social-democracia
A alternativa não está no comunismo. Não acredito em sistemas autoritários que esmagam as liberdades individuais em nome da igualdade. Mas também não aceito um capitalismo selvagem que corrói a dignidade humana.
Acredito, sim, numa social-democracia moderna. Um sistema que regule os mercados, redistribua a riqueza e coloque as pessoas acima do lucro.
É neste ponto que as ideias de Thomas Piketty são fundamentais. Ele mostra, com clareza, que a desigualdade não é inevitável. E propõe soluções realistas para a corrigir. Não defende a destruição do capitalismo — defende reformá-lo, tornando-o mais justo, mais equilibrado e mais humano.
Portugal e a Europa deviam assumir esta via. Em vez de se deixarem arrastar pelas guerras e manipulações vindas de Washington, podiam ser exemplos de uma neutralidade activa, de diplomacia e de compromisso social. Não precisamos de escolher entre comunismo e capitalismo selvagem. Há um caminho intermédio, mais sensato: o da social-democracia.
Em resumo
O medo do comunismo foi durante décadas o espantalho usado para justificar tudo. Mas a realidade é outra. Não foi o comunismo que arrasou o Iraque, devastou o Afeganistão, alimenta a guerra na Ucrânia, sustenta o massacre em Gaza ou sufoca a Venezuela com sanções — e, já agora, o mundo inteiro com tarifas impostas até a aliados próximos.
Foi o capitalismo manipulado, armado e desigual que nos trouxe até aqui.
E eu não posso aceitar isto como um destino inevitável. Só com coragem política — para regular, redistribuir e proteger os mais vulneráveis — poderemos construir um mundo mais justo.
O verdadeiro medo não devia ser do comunismo. Devia ser este: continuarmos a aceitar, de braços cruzados, um sistema que sacrifica milhões, para que meia dúzia continue a enriquecer.
Engenheiro/Colaborador














