O Magnetismo de uma Lisboa de Outrora

Lisboa sempre foi para mim um destino magnético, uma força silenciosa que, mesmo decorridas décadas desde o nosso primeiro encontro, recusa-se a ser traduzida em palavras comuns. Há cidades que se visitam e cidades que se entranham; Lisboa, para o menino que eu fui, era um feitiço.

Recuo aos meus nove anos. Recordo-me das romagens natalícias em companhia de minha mãe, tendo como destino um palacete em Cascais, onde residiam os meus padrinhos de baptismo civil. Levávamos connosco, numa rústica alcofa de vime, um galo — presente vivo e ruidoso que ofertávamos àqueles ilustres senhores. Em troca, recebia-se a promessa de um corte de fazenda, destinado a um fato ou sobretudo, tecidos de dignidade para enfrentar o futuro.

A jornada obrigava à escala na capital. O comboio de então depositava-nos no Rossio ou no Cais do Sodré, e ali, entre o vaivém da metrópole, o tempo suspendia-se num lanche frugal. Eram tempos de pouca abundância, e a memória guarda, com um carinho que o luxo não compra, o sabor de uma única banana dividida e de um pão repartido. Era o nosso banquete de rua.

Contudo, ao cruzarmos os portões do palacete em Cascais — propriedade dos patrões do meu saudoso pai — o cenário transmutava-se. Ali, sentados à mesa de mármore com os demais empregados, descobri sabores exóticos para uma criança da aldeia. Jamais esquecerei o deslumbramento de ver, pela primeira vez, um linguado imenso, cuja carne delicada parecia conter todo o segredo do mar.

A vida, porém, apressou-me o passo. Pouco depois de concluir a quarta classe, a minha professora, Dona Madalena Pereira Bessa da Cruz, num gesto de visão e bondade, decidiu que o meu destino não deveria findar nos horizontes da aldeia. Levou-me para sua casa, na Avenida Almirante Reis, onde as suas filhas me prepararam para o exame de admissão ao Ciclo Preparatório na Escola Eugénio de Santos.

Iniciava-se então o meu verdadeiro tirocínio lisboeta. Diariamente, partia de Arcena, (mas nasci no Sobralinho) apanhava o comboio em Alverca e viajava em carruagens onde o fumo das máquinas a vapor se infiltrava como um fantasma cinzento. Ao desembarcar no Areeiro, a Lisboa dos meados dos anos 50 revelava-se-me iluminada. Caminhava até Alvalade com um misto de sacrifício e prazer; se o Inverno era rigoroso e castigava o corpo, a alma aquecia-se no simples privilégio de calcar aquelas ruas.

Apaixonei-me por uma cidade que ainda vestia uma singeleza quase rural, uma Lisboa de graça discreta que o tempo, na sua ânsia de modernidade, talvez tenha descaracterizado excessivamente. Hoje, habitando mais ao norte, na vizinhança da Invicta, sinto que Lisboa permanece em mim como uma saudade viva. Sempre que lá volto, não é a metrópole de agora que procuro, mas sim aquela outra, a minha, que teima em bater no lado esquerdo do peito a cada esquina reencontrada.