O Inverno desperta lentamente

O outono ficou pra trás e deu lugar ao inverno que lentamente se instala: nos ossos, nas mãos, na respiração, no silêncio que envolve tudo. Cada manhã, cada gesto, cada descoberta é uma pequena luz que o frio não consegue apagar.

Nos próximos Contos d´Inverno a Marta e o Tomás atravessarão connosco esta estação.

Estes contos não são apenas sobre a neve ou o frio, mas sobre o que o inverno nos ensina: atenção, cuidado, presença e a consciência de que o que é fugaz também pode ser eterno no coração.

I – O inverno desperta lentamente…

O Primeiro Frio

Na manhã em que o inverno chegou, Marta acordou antes do despertador. Não foi o som que a trouxe à superfície, mas o frio – um frio diferente, instalado, como quem decide ficar. Puxou o cobertor até ao queixo e ficou alguns segundos a escutar a casa, ainda dormente.

Na cozinha, a janela estava embaciada. Do outro lado, a rua parecia mais distante do que no dia anterior. As árvores tinham desistido das últimas folhas durante a noite, deixando o chão coberto de um castanho fatigado. Marta abriu a torneira devagar, como se o barulho pudesse acordar o dia antes do tempo.

Tomás apareceu à porta, de pijama, os cabelos desalinhados e um silêncio que só as crianças trazem quando ainda estão meio dentro do sonho.

Está frio, disse, muito sério, como quem faz uma constatação importante.

Está. É inverno.

Ele aproximou-se do aquecedor, estendeu as mãos pequenas e ficou ali, a observar o calor invisível. Marta preparou o leite, sentindo que aquele gesto simples marcava uma fronteira: a partir dali os dias seriam mais lentos, mais fechados, mais interiores.

Quando saíram de casa, o ar cortou-lhes o rosto. Tomás apertou-lhe a mão com força. Caminharam até à escola em silêncio, deixando passos breves no chão húmido. Não havia pressa. O inverno não gosta de correr; enrosca-se de mansinho no avesso dos casacos de lã e parece que adormece por lá.

À porta, Marta ajoelhou-se para lhe ajustar o cachecol. Por um instante, ficou ali, ao nível dos olhos dele, reparando como o frio tornava tudo mais nítido: as bochechas coradas, o vapor da respiração, a urgência daquele cuidado breve.

Logo vens buscar-me?

Venho. Sabendo que algumas promessas são tão simples que não precisam de futuro.

No caminho de volta, Marta sentiu o peso bom do inverno a instalar-se. Não havia entusiasmo, mas havia verdade. Os dias seriam mais curtos, as noites mais longas, as ausências mais audíveis. Ainda assim, era um tempo necessário, para ficar, para guardar, para atravessar.

O inverno começava ali: naquele frio que não assustava, apenas pedia atenção. E Marta, pela primeira vez em semanas, sentiu que estava pronta para ficar.

Alguns invernos começam com frio, mas também com calor que vem de dentro.

                                                                                                       Continua