O Guardião do Teu Fogo Sagrado

(poema inédito para celebrar o Dia Mundial da Poesia)
Diante de ti, o eu se desfaz em pó de estrelas.
Não sou quem escreve, sou a mão que treme
Ao tentar traçar o contorno do impossível.
Tu não entras no poema, tu és o papel, a tinta e o fogo
A mulher que não nasce, mas emerge como a aurora
Que rasga a noite sem pedir licença.
Chamo Zeus do alto do Olimpo para ver-te os ombros
E ele larga o raio, enamorado do teu colo.
Convoco Homero, mas ele pede cegueira outra vez
Pois há luz demais na curva dos teus quadris
Para olhos mortais suportarem sem se queimarem.
Dante perderia Beatriz nas escadarias do teu silêncio
E Neruda calaria as suas odes
Pois que verso cabe no templo da tua pele?
Todos os poetas do mundo seriam apenas eco
Diante da voz original do teu sangue.
Tu és a árvore primordial, mas não a nomeio.
Digo apenas que há uma floresta antiga no teu ventre
Onde as raízes bebem o tempo e o convertem em seiva.
O arco dos teus pés não pisa o chão, consagra-o,
Como quem abençoa a terra antes da semeadura.
E sob a tua pele, não corre vida, corre o mito,
Um rio de lava doce que procura o mar.
Os teus seios são as colinas onde o sol decide dormir
Dois frutos de paz pendurados no galho do desejo
Oferecendo não leite, mas a própria substância da luz.
E no centro secreto onde a vida se origina em sussurro
Há uma flor de pétalas húmidas que nunca se fecha
O cálice onde os deuses vêm beber a eternidade.
Ali é o limiar, o portal, a origem do mundo,
Onde o amor entra e se torna religião.
E eu? Eu sou o muro ao redor do teu jardim.
Sou a sombra que te protege quando o sol é demais
O guardador silencioso do teu mistério carnal.
Não quero possuir a árvore, quero proteger a seiva.
Quero ser a casca que resiste ao inverno
Para que o teu fruto amadureça em paz.
Canto-te não para te ter mas para te salvar do esquecimento,
Para que o mundo saiba que há algo sagrado no toque
Algo divino na carne que treme.
Mulher-fogo, mulher-poema, mulher-paixão
Deixa-me ser o vento que não apaga, mas aviva.
Deixa-me ser o poeta que se cala para te ouvir crescer.
Pois se o Olimpo ruir e os versos se apagarem
Restará o calor do teu corpo como única prova
De que o amor foi, um dia, a única verdade.
Eu sou o guardião, tu és o templo.
E entre a tua pele e a minha mão
Nasce o universo outra vez.