O Google lança agentes e a IA suga-nos a conta da luz

Estamos na recta final de maio de 2026 e o abismo entre a utopia de Silicon Valley e o mundo real nunca foi tão escandaloso.

Esta semana fomos atingidos por duas realidades paralelas que colidiram a trezentos à hora: por um lado, o palco reluzente do Google I/O a prometer um futuro onde “agentes digitais” fazem a nossa cama e gerem o nosso calendário; por outro, a fúria das populações reais, com contas da luz astronómicas, a marcharem contra a construção de data centers nos seus quintais.

Como discuto frequentemente no podcast «IA&EU», o hype tem sempre uma data de validade, e essa data chega no momento em que a fatura física aterra na caixa do correio. A Inteligência Artificial deixou de ser uma caixa mágica de onde saem poemas e imagens engraçadas, para se tornar a indústria mais faminta por energia desde a Revolução Industrial.

Agarrem-se bem às vossas carteiras, porque a dissecação desta semana é sobre a “Era Agêntica”, despedimentos encapotados e a mercantilização da ferramenta que nos ia “salvar a todos”.

Google I/O

A “Agentic Era” Chegou (Para o Bem e Para o Mal)

O evento da semana foi, sem dúvida, o Google I/O. Depois de uns meses a levar pancada mediática, Sundar Pichai subiu ao palco para mostrar que o gigante de Mountain View não estava a dormir; estava apenas a compilar código.

A Google declarou oficialmente a abertura da “Agentic Era”. Lançaram o Gemini 3.5 Flash (focado em velocidade e baixo custo) e o Gemini Omni para geração de vídeo. Mas o verdadeiro protagonista foi o Gemini Spark: um agente pessoal proactivo.
Esqueçam a ideia de fazer uma pergunta e esperar por uma resposta. O Spark orquestra. Ele navega na internet contínua e silenciosamente, gere as vossas marcações (bookings), cria dashboards automáticos cruzando dados de e-mails e calendários, e, basicamente, tenta ser o sistema nervoso central da vossa vida digital. Com mais de 900 milhões de utilizadores mensais já no ecossistema Gemini, a Google não quer apenas responder a perguntas; quer antecipar necessidades.

A reacção? Dividida. Os techies aplaudiram o poder técnico. Mas a reacção do utilizador comum foi um misto de cinismo e invasão de privacidade. “Mais um agente que ninguém pediu para bisbilhotar a minha vida inteira?”, é quase como se repente todos se preocupassem com as informações que já estão fartinhos de dar às redes sociais e a outras plataformas.

A Google quer ser a canalização invisível da internet. É óptimo para a produtividade empresarial, mas para o indivíduo comum, cheira a uma dependência algorítmica da qual será impossível escapar. Os narizes podem não andar a sentir bem o cheiro.

A Fatura da Luz: O Povo Contra os Data Centers

E enquanto a Google lançava confettis digitais, a infraestrutura física batia na parede. O backlash contra o consumo energético da IA atingiu um pico histórico esta semana.

As manifestações contra novos data centers nos EUA e na Europa estão a escalar. Uma sondagem actual da Gallup mostrou que 72% dos americanos são terminantemente contra a construção destas “fábricas de nuvens” perto das suas casas. Porquê? Porque as redes eléctricas estão em sobrecarga, os preços da energia disparam e a água local é sugada para arrefecer os servidores do Sam Altman e do Sundar Pichai.

Tornou-se viral no X (antigo Twitter) a frase: “Enquanto o Google anuncia agents, as contas de luz das famílias vão explodir”. E é a mais pura das verdades. Os governos locais e europeus já discutem abertamente aplicar moratórias e impostos especiais ao consumo energético da IA. Silicon Valley acreditava que a escalabilidade do software era infinita. Esta semana, a física, a termodinâmica e os cidadãos furiosos provaram-lhes o contrário.

Despedimentos Falsos e Agentes com Cartão de Crédito

Se acham que a tensão está apenas na infraestrutura, olhem para o mercado de trabalho. A Meta e o LinkedIn anunciaram novas vagas de despedimentos, justificadas com a “nova eficiência trazida pela IA e por agentes internos”.

Vamos chamar os bois pelos nomes: isto é AI-washing. É a desculpa perfeita e cobarde para a má gestão. As grandes tecnológicas estão a usar o hype da automação para justificar cortes drásticos de custos que já estavam planeados e previstos, limpando os seus balanços financeiros para agradar a Wall Street. Como alguém bem resumiu online: “A IA promete criar novos empregos… mas o seu primeiro trabalho é servir de bode expiatório para destruir os actuais”.

A ironia disto tudo é que, enquanto despedem humanos, estão literalmente a dar carteiras aos algoritmos. A Cloudflare e a Stripe expandiram protocolos que permitem a agentes de IA criar aplicações e pagar serviços de forma totalmente autónoma. Já temos casos reais de agentes a gerar receita e a interagir economicamente uns com os outros.
A parte assustadora? Os primeiros casos de “rogue agents” (agentes desonestos ou descontrolados) que gastam orçamentos sem autorização. A ficção científica tornou-se um problema para o vosso contabilista.

A Ganância da OpenAI e o Pesadelo Secreto da Anthropic

Para fechar as novidades dos Quatro Grandes, a OpenAI continua a sua jornada de “enshittification(a degradação da qualidade em prol do lucro). Esta semana alargaram o Ads Manager directamente no ChatGPT. Pagamos uma subscrição premium para, aos poucos, começarmos a ver a interface poluída com publicidade disfarçada de recomendações. O Sam Altman trocou definitivamente a missão fundacional pelo modelo de negócio dos classificados de jornal.

Do outro lado, a Anthropic continua a dar dores de cabeça aos especialistas de segurança. Novos detalhes vazados sobre os testes internos do modelo Mythos confirmam os piores receios: a capacidade do modelo de descobrir e explorar de forma autónoma cadeias de vulnerabilidades críticas (zero-days) em sistemas informáticos é aterrorizadora. Deixa qualquer equipa de hackers humanos ou ferramentas tradicionais na pré-história.

Com a recente parceria de força bruta computacional assinada entre a Anthropic e a xAI de Elon Musk (os senhores do supercomputador Colossus), a indústria interroga-se: o que raio estão eles a construir lá dentro? Têm o cérebro mais perigoso do mundo ligado ao maior músculo computacional do mundo, e dizem-nos para não nos preocuparmos. Eu preocupo-me. Ah, e para quem acha que a corrida é só ocidental, o recém-lançado modelo chinês Qwen3.7 (da Alibaba) acabou de esmagar múltiplos benchmarks agênticos. A China continua a aproximar-se pelo retrovisor, sem fazer barulho, mas a roubar as faixas de ultrapassagem.

Conclusão: A Ferramenta Tem Uma Ficha Eléctrica

Olhando para esta semana, o padrão é irrefutável: a tecnologia de IA amadureceu ao ponto de já não estar confinada aos nossos ecrãs. Ela terá impacto na nossa factura da electricidade, nos nossos impostos e no nosso mercado de trabalho.

A Google quer automatizar a vossa vida. A OpenAI quer vender a vossa atenção aos anunciantes. A Meta quer despedir pessoas em nome do algoritmo. E a Anthropic está a criar chaves-mestras para a cibersegurança global.

O meu conselho de sempre? Não tenham medo, mas não sejam passivos. A IA é um martelo fantástico para o vosso negócio, e o Gemini Spark ou um agente integrado com a Stripe podem mesmo alavancar as vossas vendas e poupar-vos dezenas de horas. Mas lembrem-se que quem controla o martelo, hoje, quer cobrar-vos o aluguer e a electricidade que ele consome. Não deleguem a estratégia e o bom senso a um algoritmo.

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Até para a semana, e vão lá verificar se não deixaram nenhuma luz acesa. O Sam Altman precisa de carregar os servidores.

Artigo publicado simultaneamente n’ O Cidadão e 🔗 no substack do autor