O Funeral – Por António Ferro

Neste momento, estou a sair de um funeral de um jovem, na casa dos vinte, grande pianista e compositor, que nos deixou de forma súbita e de alguma forma, violenta! Amigo há muitos anos dos pais, não poderia deixar de estar presente!

Quando os filhos partem antes dos pais, criamos aquela sensação de injustiça, e em alguns casos, até de injustiça divina…

São nestes momentos que nos questionamos perante a finalidade da vida e da morte…

Infelizmente, existe tanta gente maldosa, que viola, rouba, mata e vimos partir os bons (?), enquanto “esses” continuam no lado sombrio da vida, na maldade pura e crua.

Se analisarmos a versão espirita, a explicação torna-se mais fácil!

Segundo o espiritismo (Alan Kardek), nós só ficamos na terra o tempo suficiente para cumprirmos a nossa missão evolutiva. Ou seja, se atingirmos esse objetivo, então partimos para outro “mundo”. Como exemplo o “Nosso Lar” (existe em livro e filme), um espaço, com um nível evolutivo superior à terra! Mas infelizmente para os pais, os irmãos e os amigos, mesmo que possam tentar acreditar nesta situação de vida para além da morte, o sofrimento da partida do ente querido, não se ultrapassa facilmente!

A dor da partida de um filho, não tem comparação a qualquer outra dor. Vê-mo-lo no quarto, nas recordações de infância e para qualquer lado que nos voltemos, a sua presença continua sempre, no nosso coração e na nossa memória…

O Funeral, serve para juntar pessoas, sejam familiares ou amigos. Pessoas que em alguns casos, não se veem há anos e que a sua presença é fundamental e ….

O Funeral serve para percebermos que a ganância, a inveja, a cobiça de nada serviram, nem servem…Quando se fecha a tampa do caixão, acabou!

É no Funeral que podemos expressar os nossos verdadeiros sentimentos, pois ninguém vai comentar ou criticar o choro, ou o grito, ou qualquer outra emoção reprimida e agora solta.

Enquanto num casamento, ou num batizado, os olhos avidamente fixados nas roupas, nas malas, ou nos penteados, não cessam de visionar tudo à volta, num Funeral isso não acontece…

Os funerais são muito diferentes, dependendo da cultura enraizada. Os Funerais de New Orleans, são sempre acompanhados de música.

A banda toca uma entoada triste e melancólica na ida do caixão até à sepultura e quando o caixão desce à terra, tudo muda! Invoca-se as qualidades ou as vivências do morto, e a alegria impera na saída do cemitério. Enquanto nas nossas missas do sétimo dia, tudo se consigna a uma missa religiosa, no caso de África e em alguns países da América Latina, a celebração idêntica à missa do sétimo dia, intitula-se “varrer das cinzas”. Familiares e amigos reúnem-se, normalmente na casa do morto, comem, bebem, e sobretudo lembram o lado positivo do defunto. Contando histórias e entoando alguns cantares…

Vejam as cores fúnebres…Na Europa e em alguns outros continentes, a roupa do Funeral é preta invariavelmente…Já em África e em alguns países latinos, usa-se o branco!

Os funerais pelo mundo:

Se em Portugal e Espanha, os funerais católicos não dispensam o velório e a missa, na casa mortuária ou capela, já na Irlanda o velório (wake) é tradicionalmente mais longo, com a particularidade de além de se rezar, as histórias são bem vindas e em alguns casos os cânticos também se fazem ouvir…

Viajamos até à Ásia e notamos que os costumes são diferenciados.

Na China as religiões que imperam são o budismo, o taoísmo e o confucionismo. Queimam-se incensos e as oferendas em papel (notas, telemóveis, casas, etc…), é uma forma de ajudar o falecido no além.

Já no Japão, onde impera a religião budista, há um velório (otsuya) e a seguir à cremação, a família recolhe os ossos das cinzas, passando de pessoa em pessoa até à urna.

Na Índia, impera o hinduísmo, o corpo é cremado junto às margens do rio Ganges, sendo que o fogo da cremação é visto como libertador da alma e purificador.

No continente africano existem duas diferentes formas de se realizar um funeral. No Gana, os funerais têm grandes celebrações, com música, danças e com a particularidade dos caixões terem formas criativas como: aviões, peixes ou até automóveis, que tentam personalizar a vida ou profissão do defunto. Contrariamente na África do Sul, realizam cerimónias cristãs, onde se misturam rituais ancestrais, uma forma dos antepassados poderem receber o falecido.

No Brasil, predomina o funeral católico, com um velório curto seguido de enterro. Embora em algumas regiões haja música!

México celebra anualmente o “Dia de los Muertos”, que não é propriamente um funeral, mas um culto anual aos mortos. Para esta

cerimónia constroem-se altares, com as tradicionais “cempasúchil” (flores), muita comida e caveiras coloridas. O funeral, realiza-se de uma forma tradicional. A diversidade dos funerais cristãos, judaicos e muçulmanos tem representação nos Estados Unidos. Relembram a vida do morto, com fotos, discursos e música.

Por último a Oceânia…Na Austrália, os rituais variam entre comunidades, mas geralmente incluem cânticos, danças, um forma em estilo de crença, que o espírito retorne à “Terra dos Sonhos”. Os velórios chamados “tangihanga”, são realizados na Nova Zelândia, e normalmente demoram dias, realizados no espaço comunitário intitulado de “marge” e são ditos discursos e em alguns casos, também se ouvem cânticos.

“A morte chega cedo
Pois breve é toda a vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto”.

Fernando Pessoa