O FATO ( viagem à infância) – Por Onofre Varela

Em Dezembro de 1999 Jorge Sampaio era Presidente da República e lembrou-se de receber, no Palácio de Belém, os produtores culturais do país. E também se lembrou de que tais agentes não são só escritores, pintores, actores, músicos e bailarinos… os cartunistas também fazem parte desse lote alargado. Nesse sentido, recebi um convite da Presidência da República para estar presente na recepção. Porém, no rodapé do convite havia este recado que me desmotivou: “Traje: fato”.

Era um recado desmotivador porque eu não uso fato!… A minha primeira reacção foi pensar: “não vou”. E arrumei o convite. Logo a seguir fui tomado pela curiosidade habitual perante as coisas que nego ou afirmo. Pergunto-me por que o faço?… Havia algo que me levava a rejeitar a vestimenta que todos os homens usam, menos eu… Porquê?!…

Nem no meu casamento comprei fato. Usei um que a minha avó materna me tinha oferecido um ano antes, para assistir ao casamento de uma prima… e a minha avó só conseguiu convencer-me a vestir tal vestimenta, depois de muito esforço verbal para me “dar a volta”. Foi esse fato que usei, depois, no meu casamento… só porque a minha noiva se negou a casar-se vestindo a saia e a pôr o avental de todos os dias… eu vestiria fato-macaco!

Na procura das razões da minha repulsa em vestir fato, mergulhei na memória e encontrei-me com dez anos de idade na quarta classe da escola primária. O professor era o mesmo nas quatro classes, que nos acompanhava em toda a aprendizagem, mas eu adoeci a meio do ano, com um problema pulmonar, e fiquei de cama – ou em reclusão caseira fazendo muito descanso e tomando, diariamente, uma injecção de um produto denominado “estreptomicina” (que penso ter sido penicilina) – por um período de quase um ano. Por isso precisei repetir a quarta classe, com outro professor.

Calhou-me uma professora. Não me recordo do seu nome, mas presumo ser Alzira. Do que me recordo bem é do seu rosto. Tinha pálpebras muito altas, ampliando o espaço entre os olhos e as sobrancelhas. Quando pestanejava era como se estivesse a subir e a descer as persianas das janelas que seriam os olhos. A boca não fechava totalmente porque os dentes incisivos eram demasiado compridos e ficavam de fora, sobrepostos no lábio inferior… e ao falar acumulava saliva nos cantos da boca, o que lhe dava um ar repelente.

Um dia, a professora anunciou uma excursão à Ria de Aveiro para vermos as salinas e a seca do bacalhau, e depois desenharmos e escrevermos sobre o que viramos. (Vejam lá!… Sou do tempo em que havia bacalhau sobre grades de arame a secar ao Sol, em Aveiro!… Sou mesmo antigo como o caraças… deve ser por isso que sinto estar a ficar velho). Mas havia uma recomendação especial a ter em conta: “Traje: bata”.

Quando cheguei a casa informei a minha mãe da viagem escolar que iria fazer em breve e da recomendação da professora. De imediato, a minha mãe sentenciou: “Bata?!… Não! O meu filho vai à excursão, mas vai de fato!”. Comprou um tecido azul prússia com riscas brancas muito fininhas, e encomendou um fato ao Senhor João alfaiate, com ateliê numa esquina redonda, perto da estação dos caminhos de ferro de Rio Tinto, quase defronte do armazém do carvão descarregado pelas cestas que vinham de S. Pedro da Cova por via aérea, como teleférico.

No dia da excursão apresentei-me na escola todo pinoca que até parecia um manequim de montra. Caminhava desajeitadamente, procurando não dobrar muito os joelhos, para que o vinco das calças se mantivesse conforme o alfaiate o fez! Quando a professora olhou para mim, levantou as persianas até cima escancarando os olhos, e mostrou mais porção de dentes:

– A bata?

– Não tenho…

– Não?!… Então não vais.

Agarrou-me por um braço, arrastou-me até à sala de aula onde me fechou à chave. Ali fiquei, só, sentindo-me a pessoa mais infeliz do mundo, chorando como Maria Madalena vendo Jesus arrastar-se pela sua “via crucis” carregando o madeiro. Pela janela via a camioneta que iria perder. Tinha linhas redondas e escada na traseira para se aceder ao tejadilho. Via a sua imagem ondulante pelo efeito das lágrimas.

Pouco depois, abriu-se a porta e entrou a professora trazendo na mão uma bata transformada em trapo encorrilhado e sujo, e ordenou que vestisse aquilo por cima do meu lindo fato novo. Tirou-me da sala e enfiou-me na camioneta, quando ainda ninguém tinha entrado. Sentei-me a uma janela, distraindo o espírito com a imagem dos meus colegas correndo e gritando lá fora.

Quando saí de casa naquele dia aziago, a minha mãe deu-me cinco escudos para eu poder comprar uma guloseima em Aveiro, e disse-me que se conseguisse ir à escola despedir-se de mim, o faria. Da janela da camioneta via-se o final da quelha que era o caminho de minha casa, e de onde haveria de surgir a minha mãe se os seus afazeres lhe permitissem deslocar-se à escola.

E eis que ela surge!… A figura protectora da minha mãe aparecia na desembocadura da viela!… Para mim era como se viesse do céu, qual anjo salvador da minha alma amalgamada, suja e fria, a sentir-se negra como uma noite invernosa gélida e sem Lua. A minha mãe subiu à camioneta como se fosse o Sol, e sentou-se ao meu lado.

Entre lágrimas e soluços contei-lhe o sucedido. Ela consolou-me com aquelas palavras que só uma mãe sabe dizer, e deu-me mais vinte e cinco tostões para juntar aos cinco paus que me deu em casa. Depois, saiu da camioneta e foi ter com a professora. Não ouvi o que disse porque falou baixo. Mas vi que olhava a professora nos olhos e, de dedo em riste, falava-lhe de modo calmo como era seu timbre. A professora só escutava.

No final do ano fui o único aluno da turma que não foi levado a exame!…

“Eschola de Rio Tinto” (Assim regista a gravação na pedra com a data de 1870), onde fiz a instrução primária. Referida, então, como Escola da Boavista, hoje é um infantário. A janela da sala da minha breve “reclusão” é a primeira à direita da porta, que tem junto a placa do Parque de Estacionamento.

Esta viagem à memória levou-me a concluir estar aí a razão que me levava a repudiar fatos! Quando se conhece a razão dos traumas e dos fantasmas que alimentamos, fica facilitado o caminho para os abandonarmos.

Nesse sentido, resolvi curar-me daquele trauma e decidi comparecer à recepção do Senhor Presidente. E comprei um fato! A escolha não foi fácil. Queria um fato de bombazine, cinzento escuro ou preto. Com a minha mulher que me ajudava na escolha, percorri as lojas de Santa Catarina, no Porto, sem sucesso imediato. Estava difícil encontrar o que procurava. Por fim, numa loja do Via Catarina encontrei o fato na versão preta.

No dia da recepção, ao fim da tarde, lá estava eu na fila dos produtores de cultura, em frente à porta da entrada do Jardim do Palácio de Belém. À minha frente estava José Saramago. Mais adiante, Herman José, vários actores e mais cartunistas: Jorge Rosa (caricaturista do Parque Mayer), Zé Manel (Diário de Notícias), Zé Oliveira (Diário de Leiria) e Vasco (Público). O António, do Expresso, não compareceu e criticou, no seu cartune semanal, aquele encontro dos artistas com o Presidente, titulando-o: “A ida ao beija-mão”! (Ah, ah, ah).

Porém – há sempre um porém a rematar as minhas melhores intenções, e nem a boa nova de me libertar do fantasma do fato, me valia – enquanto esperava sentia um frio desusado na perna direita. Aquele tecido parecia ser demasiado fino e deixava entrar a aragem gelada do fim-de-tarde daquele dia de Novembro!…

Já nos salões do palácio, comendo queijo da serra sobre bolacha de água e sal, meto a mão ao bolso das calças… e encontro a coxa! A costura estava descosida desde o bolso até ao joelho!… Andei a mostrar o “coxão” a toda a gente!…

Quando regressei ao Porto fui à loja apresentar a minha reclamação. Contei-lhes o mau momento que me fizeram passar em frente do Presidente, e rimos com o facto. Dois dias depois fui levantar as calças perfeitamente costuradas… e agora tenho um fatinho para me vestirem quando esticar o pernil e ir a enterrar todo pinoca que nem manequim de montra… só espero não ter lá a professora Alzira a enfiar-me uma bata encorrilhada e suja!…