O ensino e a ciência em Portugal – entrevista com Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais e Rui Paulo Costa

Carlos Fiolhais, professor e divulgador da ciência, tem dedicado grande parte da sua carreira ao estudo e à comunicação da ciência em Portugal. O seu mais recente curso, “História da Ciência em Portugal”, reflete esse compromisso. Numa entrevista a “O Cidadão”, partilhou as suas perspetivas sobre a receção do público ao curso, a evolução do ensino da Física e os desafios da ciência no país:

O Cidadão (OC) – O que o motivou a criar o curso “História da Ciência em Portugal”?

Carlos Fiolhais (CF) – Foi um pedido para dar um curso que recebi do Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Escolhi este tema, porque a história da ciência em Portugal me interessa e porque havia poucos recursos para o grande público. Fiz vários cursos em Lisboa e agora foi o primeiro em Gaia. O curso tem um «manual» com o mesmo título do curso e, curiosamente, esse livro ainda não tem concorrentes…

(OC) – Como avalia a receção do público a este curso?

(CF) – Muito boa, parece-me. estou grato a quem lá esteve. Mas não serei a melhor pessoa para avaliar.

(OC) – Quais foram os principais desafios ao longo da sua carreira no ensino da Física?

(CF) – Os desafios foram os normais na vida de um professor. Mas um especial, que enfrentei com gosto, foi o uso no ensino dos computadores pessoais e da Internet, que surgiram precisamente no início da minha carreira docente.

(OC) – Como vê a evolução do ensino da Física em Portugal nas últimas décadas?

(CF) – No meu curso em Coimbra éramos só quatro alunos. Agora, felizmente, há muitos mais. E as novas tecnologias vieram dar uma grande ajuda. Nós não as tínhamos e os atuais alunos têm. Mudou muito em Portugal e no mundo desde 1978, quando acabei o curso. Lembro que foi mais ou menos nessa altura que surgiu o computador pessoal e, uma década depois, a Internet como a conhecemos hoje.

(OC) – Qual a importância da divulgação científica para o público em geral?

(CF) – É essencial para criar e manter cultura científica, isto é, a incorporação da ciência na sociedade. Hoje não se pode ser um cidadão pleno se não se souber o que é a ciência e para o que é que serve. Há uma interação entre ciência e sociedade nos dois sentidos: a ciência precisa do apoio da sociedade, mas a sociedade também precisa do apoio da ciência. Tenho escrito livros para o público em geral pensando no desenvolvimento dessa interação.

(OC) – Pode partilhar alguma experiência marcante, da sua vivência como físico, dado como sabemos possui uma considerável reputação, não só cá dentro, mas também a nível internacional?

(CF) – Como professor pude influenciar muitos alunos. Como investigador relevo a criação em Coimbra do Centro Computacional com a instalação de supercomputadores. Entre os meus mais de 150 artigos científicos, destaco um que teve mais de 20.000 citações, o que significa que esses trabalho foi útil para muitos outros trabalhos em todo o mundo.

(OC) – Como avalia a posição de Portugal no panorama científico internacional?

(CF) – Já não nos envergonha como acontecia há 50 anos. Mas estamos ainda aquém do que devíamos fazer no palco internacional. Uma das causas é o fraco investimento do Estado e das empresas: só 1,7% do PIB contra 2,2% da média da União Europeia. O objetivo europeu é 3% e nós não estamos a ajudar. De qualquer modo fazemos muito com pouco. Poderíamos fazer ainda mais se houvesse condições para fixar mais investigadores em Portugal. Alguns vêm-se forçados a emigrar.

(OC) – Quais são, na sua opinião, os maiores desafios que a Física enfrenta atualmente em Portugal?

(CF) – Os problemas da Física em Portugal são os mesmos que lá fora uma vez que a ciência é internacional. Os físicos portugueses trabalham com muitos colegas estrangeiros, quer cá quer lá fora. Grandes desafios da Humanidade onde entra a física são as alterações climáticas, a inteligência artificial e a nanotecnologia/biotecnologia. Mas nós dispomos de menos recursos. Os nossos equipamentos não são tão poderosos, por exemplo. E é preciso uma melhor organização da ciência, muito em particular nas universidades, dando mais oportunidades aos mais jovens.

(OC) – Que conselhos daria aos jovens que pretendem seguir uma carreira na Física?

(CF) – Que vão atrás dos seus sonhos como eu fui. Há muitos mistérios do Universo por desvendar. E mais aplicações para tornar mais confortável a nossa vida.

(OC) – Como antevê o futuro da Física em Portugal nos próximos anos?

(CF) – Oxalá cresça e melhore. Não é difícil: há espaço para crescer e para melhorar. Acredito na criatividade das atuais e próximas gerações.

Em jeito de resumo, percebemos que ao longo desta conversa, Carlos Fiolhais sublinha bastante a importância da cultura científica e do investimento na investigação para o futuro do país. Destaca também os desafios e oportunidades que os jovens físicos enfrentam e com um olhar otimista, acredita no potencial das novas gerações para impulsionar a ciência em Portugal.

OC/RPC