O doente chama-se SNS – Por Amadeu Ricardo

Portugal descobriu um novo milagre da multiplicação: cada urgência encerrada no serviço público dá origem a mais uma clínica privada florescente. É um mistério da fé — fé no mercado, claro.
Os discursos oficiais são só ternura: “Estamos a reforçar o SNS”, dizem, enquanto fecham maternidades por falta de obstetras. É como o bombeiro que garante estar a apagar o fogo enquanto despeja gasolina. A estratégia é tão óbvia que chega a ser elegante: tornar o SNS tão frágil, tão lento e tão incapaz que os cidadãos, desesperados, correm de braços abertos para as alternativas privadas. E lá estará o tapete vermelho, estendido e pronto.
Os médicos fogem do público? Pois claro: quem aguenta trabalhar 60 horas por semana para receber metade do que receberia a dar consultas privadas? Mas em vez de se corrigir a sangria, assobia-se para o lado. Afinal, não convém ter demasiados médicos satisfeitos no SNS, não vá alguém começar a achar que o sistema funciona.
Entretanto, a propaganda insiste na cantiga: “A liberdade de escolha”. É bonita, não é? Parece coisa de democrata avançado. Só que a liberdade é uma farsa: ou esperas meses por uma cirurgia, ou pagas já no privado. É como escolher entre morrer à sede ou comprar uma garrafa de água ao preço do melhor champanhe.
E nós, os eleitores, assistimos ao espetáculo onde todos juram defender o SNS. Talvez seja verdade. Defendem-no como se defende um doente terminal: com palmadinhas na mão e palavras doces, enquanto se desliga a máquina do oxigénio devagarinho.
No fim, quando o funeral do SNS for marcado, vai ser um sucesso para a economia. Empresas de saúde privada em festa, planos de seguros a multiplicar-se, e um novo mercado robusto para explorar o medo humano da doença. Para alguns, será a vitória do empreendedorismo. Para o resto de nós, apenas a derrota daquilo que restava de um Estado social.
O doente chama-se SNS. E parece que a cura encontrada foi transformá-lo num excelente negócio para outros.