Novo Ano – um ritual de balanços e promessas

Esperamos, com mais ou menos entusiasmo, pela meia-noite, para engolir as passas, uma a uma entre desejos formulados na hora.

A passagem de ano tem a estranha capacidade de nos convencer de que o tempo é um quarto arrumável. À meia-noite, acreditamos, sinceramente, que basta virar a página do calendário para que tudo faça mais sentido. É um ritual coletivo, quase litúrgico, em que fingimos que doze badaladas têm poder curativo.

No final do ano, tornamo-nos todos contabilistas da própria vida. Abrimos mentalmente um livro de contas invisível e fazemos balanços apressados: somamos conquistas, subtraímos desilusões e tentamos convencer-nos de que o saldo não é assim tão negativo. É um exercício curioso, feito quase sempre à luz fraca da nostalgia e com uma tolerância suspeita para os nossos próprios erros.

Os balanços anuais têm uma particularidade: são profundamente subjetivos. O que correu mal, ganha contornos épicos, o que correu bem parece ter sido apenas “o mínimo esperado”. Revemos decisões com a arrogância de quem já conhece o desfecho e julgamo-nos com uma severidade que raramente aplicamos aos outros.

Ainda assim, repetimos o ritual todos os anos, como se houvesse alguma revelação nova à espera. Talvez seja isso que faz deste rito algo tão humano: não a promessa de mudança real, mas a necessidade coletiva de acreditar que ainda vamos a tempo.

Depois vêm as promessas. Solenes, entusiasmadas, muitas vezes feitas em voz alta para testemunhas – o que lhes confere uma falsa sensação de compromisso. Prometemos mudar hábitos, rotinas, atitudes e, se possível, personalidades inteiras. Prometemos dormir melhor, viver com mais calma, ligar mais vezes, preocupar-nos menos. É uma lista extensa para um ano que sabemos, lá no fundo, que será tão caótico quanto os anteriores.

As resoluções são o capítulo mais irónico desta história. Escrevemo-las como quem escreve uma carta a um “eu” imaginário, muito mais disciplinado e organizado do que aquele que realmente existe. Janeiro começa com energia, fevereiro com desculpas e março com esquecimento. E, curiosamente, isso não nos impede de repetir tudo no ano seguinte, com a mesma convicção ingénua.

Há, no entanto, algo de profundamente humano nesta repetição. Falhar resoluções não é sinal de falta de carácter, mas de excesso de esperança. Continuamos a prometer porque continuamos a acreditar, mesmo que de forma pouco informada, que somos capazes de fazer melhor. E talvez isso baste.

Curiosamente não formulo desejos, não como as doze passas uma a uma; não subo a cadeiras.

Mas se tiver oportunidade olho para o céu, não sei se em busca de uma força oculta que me dê a mão e me encaminhe os passos. É o meu ritual sem alarido, mas tão válido como o fogo de artifício que abre os céus.

No fim, os balanços nunca fecham, as promessas ficam por cumprir e as resoluções acumulam pó emocional. Mas regressamos sempre a elas, ano após ano, como quem insiste numa tradição imperfeita. Porque, apesar de tudo, ainda não aprendemos a viver sem a ideia reconfortante de que o próximo ano pode ser diferente e sempre melhor.

No fundo, a passagem de ano não muda nada de concreto. O dia seguinte acorda igual, com o mesmo corpo, os mesmos problemas e o mesmo café de sempre.

No entanto todos precisamos de acreditar que recomeçar é possível e 2026 está aí à porta.

Feliz Ano!