Nós que atravessamos margens ao ritmo do Trovante

Quatro noites, duas cidades e uma só certeza: meio século depois de nascerem em tendas batidas pelo vento de Sagres, os Trovante voltaram a incendiar o país. Lisboa e Porto esgotaram-se em minutos para receber este reencontro raro, intenso e generoso, onde gerações inteiras — das que atravessaram a adolescência nos anos 80 às que hoje já contam o tempo em rugas e memórias — se levantaram para celebrar uma música que nunca envelheceu. No último concerto, no sábado, 28 de março de 2026, o Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota tornou-se a plural casa de milhares de “geriátricos felizes”, prontos para recuperar décadas num só refrão e provar que há canções que resistem ao tempo melhor do que nós próprios. Esta crónica é o retrato vivo desse regresso, dessa peregrinação emocional e dessa travessia de margens que só o Trovante sabe convocar.

Nascer no final dos anos 60 — em 1968, 1969, 1970 — foi crescer num tempo de transição, entre o silêncio herdado e a esperança que despontava. Quando em 1976, em Sagres, um grupo de jovens de vinte e poucos anos — Luís Represas, hoje com 69 anos, Manuel Faria, com 68, João Gil, João Nuno Represas e Artur Costa — começou a tocar guitarra em tendas batidas pelo vento, nós éramos crianças. Tinham acontecido sete anos desde o nosso nascimento e ainda caminhávamos entre lápis de cor, ruas por descobrir e o eco de um país que se reinventava. Não sabíamos, então, que aqueles acordes iriam moldar a paisagem emocional das décadas seguintes.
Ao longo dos anos 80, o Trovante cresceu connosco. Aos 14 anos, ouvimos pela primeira vez “Baile no Bosque” (1981), e sentimos a frescura de um país que, finalmente, aprendia a dançar sem medo. Aos 16 anos, com “Cais das Colinas” (1983), descobrimos que a saudade podia ser casa, porto e vertigem — tudo ao mesmo tempo. E aos 20 anos, quando “Terra Firme” (1987) nos trouxe “Perdidamente”, “Memórias de Um Beijo” e “125 Azul”, percebemos que a vida adulta era um estágio onde o amor, a perda e a coragem entravam em cena sem pedir ensaio. Estas canções não eram apenas sucessos: eram espelhos. Eram capítulos. Eram margens.
No final dos anos 70, antes mesmo de subirem aos grandes palcos, os Trovante participaram no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Cuba. A viagem foi feita num gigantesco navio soviético, com 400 italianos e 300 espanhóis, todos abaixo dos vinte anos, numa travessia descrita pelos próprios como “loucura total”. Não havia telemóveis, apenas memória e juventude — e, entre os portugueses que embarcaram, seguia também um jovem de Aveiro, o Daniel Rodrigues, que traria para casa uma história que nunca mais se apagaria. Esse mar, essa partilha, essa coragem, ficaram para sempre na identidade da banda que nós viríamos a amar.
E nós crescemos para ensinar. Tornámo-nos professores, educadores, mediadores de mundos. Descobrimos que a música podia abrir caminhos onde as palavras hesitavam. Por isso, durante tantos anos letivos, pusemos a tocar “Outra Margem” no primeiro dia de aulas. Era o nosso gesto secreto de boas-vindas. Cada aluno chegava de uma margem diferente — alguns de margens frágeis, outros de margens distantes, outros ainda de margens partidas — e aquela canção dizia-lhes, sem dizer: “Vão atravessar. Não estão sozinhos.” Com ela, ensinávamos que aprender é sempre pisar terreno novo, que crescer implica abandonar o lado seguro do rio. Nós atravessávamos com eles.
E chegou, enfim, 28 de março de 2026, no Meo Arena, no Porto, para o quarto e último concerto do ciclo “Viver Tudo Numa Noite”. A lotação estava completamente esgotada, como já anunciara a produção. Uma noite dedicada, como se brincou na plateia, aos “geriátricos premium” — adultos de 50, 60 e muitos anos, prontos para recuperar a juventude no primeiro acorde. A verdade é que todos nós, ao entrar naquela sala, deixámos à porta as dores lombares, os exames de rotina e o calendário das consultas. Entrámos leves. Entrámos jovens. Entrámos nós.
Quando Represas entrou em palco, a arena respirou em uníssono. Cada música abriu um corredor de tempo: “Balada das Sete Saias” trouxe a leveza dos anos sem medo; “Travessa do Poço dos Negros” devolveu-nos as noites longas da procura; “Saudade” devolveu‑nos a casa; “Timor” devolveu-nos a consciência de ser parte de um país vivo; “Um Destes Dias” devolveu-nos a persistência; “Memórias de Um Beijo” devolveu-nos a chama que nunca se extingue.

E então, “125 Azul”. Há canções que atravessam gerações e há canções que atravessam pessoas. A história não é mito: as fontes indicam que ela poderá ter nascido da morte de um familiar próximo de Luís Represas num acidente de mota. É por isso que dói. É por isso que liberta. É por isso que, naquele pavilhão Rosa Mota, houve silêncio, houve respiração presa, houve gente com lágrimas discretas — porque todos nós, aos 57 ou 59 ou 61 anos, já perdemos alguém no caminho. Já conduzimos também a nossa própria “125” entre memória e destino.
E no meio de tudo isto, compreendemos finalmente quem somos: uma geração que cresceu com o Trovante e que o Trovante nunca abandonou. Fomos atravessados pelas mesmas décadas, pelas mesmas inquietações, pelas mesmas margens. E, de certa forma, ensinámo-nos uns aos outros a viver.
Quando a última nota se apagou na arena e a multidão ficou suspensa por um instante, percebemos o que tantas vezes esquecemos no quotidiano: a vida é feita de margens sucessivas — e as canções são barcos que nos levam de uma para a outra.

Saímos devagar, mais velhos no corpo, mais jovens na alma. Talvez com a lombar a protestar, talvez com o passo mais lento, talvez com a nostalgia à flor da pele. Mas com a certeza absoluta de que continuamos do lado certo da canção.
E isso basta. Basta para atravessar para a margem seguinte.