Norte de Angola: Páscoa de 1967 – Por Onofre Varela

Cogitando sobre a vida passada, dei comigo em Angola no Domingo de Páscoa do ano de 1967. Foi um dia especial que me ficou indelevelmente gravado na memória… mas só 50 anos depois tive consciência do que realmente aconteceu nesse dia, da dimensão do acto que protagonizei e que podia ter acabado mal.

Eu tinha chegado à vila do Úcua, nos Dembos (região norte) no último dia de Dezembro de 1965, integrado na CCS (Companhia de Comando e Serviços) de um Batalhão de Artilharia.

O ano que se seguiu foi um período de acções militares na tentativa de eliminar acampamentos de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) dispersos pela região.

Porém, havia uma missão recomendada pelo Quartel-General de Luanda que, não sendo acolhida do mesmo modo por todos os batalhões expedicionários, o meu comandante (Tenente-coronel José Pires Simões) fazia questão de a cumprir com rigor e empenho: era a tarefa de recuperar, do mato, gente fugida às várias facções em luta: o Exército Português, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), o ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola) e a FLNA (Frente de Libertação Nacional de Angola). A UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) do guerrilheiro Jonas Savimbi, ainda não existia… estaria em fase de formação.

Essa gente que recuperávamos do mato, de entre a qual havia crianças nuas – desde bebés até jovens com cerca de seis anos, que nunca tinham visto um branco e quase morriam de medo perante os militares que os recolhiam – e mulheres sem roupa, que tapavam a sua nudez com folhas de bananeira.

O Exército dava-lhes habitação, comida, roupa, terra para cultivar e horizontes para refazerem as suas vidas. Conseguimos reunir famílias que não se encontravam desde 1961.

Eu era soldado condutor, mas tinha sido colocado na Sec/Op/Info-AP (Secção de Operações, Informações e Acção Psicológica) com a missão de fazer um jornal mensal e actuar no conjunto musical “Os Galos”, cantando, fazendo ilusionismo, Stand up Comedy (modalidade de comédia que ainda não existia por cá) e pintar cenários para os espectáculos que fazíamos por toda a vasta zona do litoral norte de Angola, entre o mar (Ambriz, Ambrizete) e as localidades do Caxito, Úcua, Quibaxe, Quitexe, Carmona, S. Salvador, Nóqui e Santo António do Zaire.

Por aqueles dias que antecedem a Páscoa, numa operação militar, foi apanhado no mato um homem que não soube fugir nem esconder-se… metido entre umas moitas, foi descoberto e alvejado num braço. O ferimento não era grave e depois de tratado pelos enfermeiros de campanha, foi interrogado. Tinha sido trabalhador da Roça Luzia, no Úcua, e fazia parte dos vários grupos que fugiam de todas as forças em litígio. O dono da Roça (um colono de nome Acácio Cunha) reconheceu-o, sabia o seu nome (Pedro Bravo) e o seu passado.

Nesta parte da história entra um outro elemento: a “Propaganda Política”.

Aquela recuperação de um trabalhador da Roça maior daquela zona (Acácio Cunha era o dono de todas as terras e casas da vila do Úcua, mais de todas as frondosas árvores que se avistavam à volta, e mais plantações de café, abacaxi, banana e sisal, com fábrica de fazer corda e serração para tratar a madeira das árvores abatidas).

Havia que aproveitar o regresso do Pedro Bravo à Roça, para dar a falsa noção de que aquela zona estava pacificada. Nesse sentido, fez-se uma festa no Domingo de Páscoa, com altas patentes militares e autoridades civis vindas expressamente de Luanda acompanhadas pela imprensa para o devido cobrimento jornalístico do falso “fim da guerra no Úcua”, estampado no jornal ABC, afirmando uma paz que, realmente, não existia!


A tarde de Domingo seria abrilhantada com uma actuação do conjunto “Os Galos” para todos aqueles convidados VIP do colono Acácio Cunha… mas eu tive dúvidas num primeiro momento, porque me lembrei do que vi num dia de pagamento: uma fila de trabalhadores negros em frente do escritório para receberem o ordenado. Recebiam o dinheiro, que conservavam na mão, e formavam outra fila em frente da porta da cantina, para pagarem o que deviam ao patrão que lhes vendia a crédito, panos, vinho, artigos de mercearia, cerveja e aguardente! Aquele colono acabava por ter trabalho gratuito, e ainda recebia dos seus assalariados!…

E admiravam-se por os negros se revoltarem?… Até eu, que sou branco, me revoltei!

No segundo momento, contei aos meus camaradas do conjunto o que vi, e por isso que não contassem comigo no espectáculo, porque “o Acácio Cunha não vai rir-se de mim, nem comigo!”

Os meus camaradas iam-me matando; que eu não podia falhar, que o humor e o ilusionismo eram uma marca do conjunto, e etc, etc. Não me convenceram e não apareci na Roça. O padre-capelão – que funcionava como uma espécie de agente do grupo musical – procurou-me antes do espectáculo, e quis saber a razão da minha recusa. Contei-lhe o que vi e o desprezo que sentia pelo colono. Deu-me uma palmada nas costas e disse “Percebi-te”!

A parte curiosa de tudo isto – e só pensei nela 50 anos depois, quando escrevi as minhas memórias da guerra para editar em livro – é que o comandante José Pires Simões deve ter perguntado por mim… o capelão informou-o da razão da minha recusa… e ele aceitou-a!…

Podendo usar a sua autoridade para me obrigar a cumprir a tarefa que tinha no conjunto, inclusive com ordem de prisão… não o fez!

Grandioso comandante!…