Neve nos Passos

III – As ruas cobertas de branco são um convite à atenção…

Naquela manhã, um mar branco diante dos olhos. A neve tinha caído durante a noite, cobrindo a rua com um manto macio e silencioso. Marta abriu a porta de casa e sentiu a primeira rajada fria a gelar-lhe o rosto. Tomás apareceu ao seu lado, calçado com botas grandes demais e luvas que pareciam feitas para mãos maiores. Todo ele cabia dentro delas.

Olha! Podemos fazer pegadas neste chão branquinho.

Seguiram pela rua ao compasso daquele silêncio branco, cada passo deixava uma marca breve na neve ainda intacta. O barulho era mínimo, apenas o ranger dos sapatos a comprimir a camada espessa, o sopro da respiração transformando-se em pequenas nuvens que desapareciam rapidamente.

Tomás parou, inclinou-se e tocou a neve com as mãos. O frio parecia firme, quase vivo.

Marta sorriu, observando-o a descobrir a textura, a densidade, a quietude do mundo transformado. Cada gesto dele parecia uma celebração calada.

Vês as minhas pegadas? É como se a neve nos seguisse.

Sim. Cada passo fica, mesmo que por pouco tempo.

Caminharam até ao parque, onde as árvores estavam cobertas de neve e os bancos escondidos sob pequenas colinas brancas.

Marta sentiu a presença do inverno em cada detalhe: o céu cinza que não pesava, o silêncio interrompido apenas pelo bater do coração e pelo riso de Tomás, a modelar bolas pequenas que pareciam pipocas.

O inverno é engraçado: é frio, mas também é bonito. Continuava sem tirar as luvas maiores que as suas mãozitas. Não as queria molhar.

Marta concordou sem dizer palavra. Percebeu, de novo, que a estação não era só sobre o frio ou sobre a neve. Era sim, sobre os momentos vividos que riscam de cor a vida.

Pegadas na neve, risos na rua vazia, pequenas descobertas, tudo isso era inverno. Tudo isso ficaria na memória mesmo quando a neve desaparecesse.

Quando regressaram a casa, Marta sentiu uma alegria silenciosa de um dia vivido por inteiro, mesmo que breve. As botas carregadas de neve, o rosto afogueado de Tomás e as luvas onde quase cabia inteiro, mostravam-lhe que o inverno podia ser assim: efémero e intenso, simples e autêntico.

Importante mesmo, são as memórias das pegadas quando a neve desaparece.