Mundo ultrapassa primeiro ponto de não retorno climático

O segundo Relatório Global Tipping Points, desenvolvido pela WWF Internacional-World Wide Fund for Nature  em parceria com a Universidade de Exeter e outras instituições científicas, conclui que o mundo entrou numa nova realidade climática. O documento, elaborado por 160 cientistas de 87 instituições em 23 países, será apresentado na próxima semana, antes da Cimeira da COP30, no Brasil.

Segundo o relatório, os recifes de coral de águas quentes – dos quais dependem quase mil milhões de pessoas e cerca de um quarto da vida marinha – estão já a sofrer mortalidade generalizada, sinal de que o primeiro ponto de não retorno climático foi atingido. Mesmo com o aquecimento global estabilizado nos 1,5 °C, prevê-se a perda de recifes em larga escala, a menos que a temperatura global regresse a cerca de 1 °C. Pequenas áreas de recifes poderão, no entanto, sobreviver, sendo essencial implementar medidas urgentes de conservação.

O relatório alerta também para a iminência de outros pontos de não retorno, incluindo o colapso da Floresta Amazónica, o degelo irreversível das calotas polares e a desestabilização da Circulação Meridional de Reviravolta do Atlântico (AMOC) — uma corrente oceânica vital para o clima global. O colapso da AMOC, que pode ocorrer com menos de 2 °C de aquecimento, teria consequências graves, como invernos mais rigorosos na Europa, perturbações nas monções africanas e indianas e quebras nos rendimentos agrícolas, colocando em risco a segurança alimentar global.

A publicação surge num momento em que os ministros do Ambiente se preparam para a COP30, onde será debatida a necessidade de minimizar a ultrapassagem do limite de 1,5 °C. O relatório defende que cada fração de grau e cada ano adicional acima desse valor aumentam o risco de atravessar novos pontos de não retorno nos sistemas naturais.

Para inverter esta tendência, os cientistas defendem a criação de “pontos de viragem positivos”, como a adoção acelerada de energias limpas e soluções baseadas na natureza. Já há avanços em setores como a energia solar e eólica, os veículos elétricos e o armazenamento em baterias, mas é necessário expandir estas transformações para a produção alimentar e outros domínios económicos.

“O que este relatório nos diz é que já começámos a ultrapassar os pontos de não retorno da natureza e do clima. O tempo para agir está realmente a esgotar-se, mas ainda podemos conter os danos. Para isso, é necessária uma ação imediata e decisiva por parte dos líderes mundiais na COP30 – para proteger os direitos das pessoas em todo o mundo, já que as metas atuais e contributos de cada país não são suficientes. Mas também é preciso alavancar pontos de viragem positivos. Restaurar a natureza é uma das formas mais poderosas de o fazer, sendo essencial para criar resiliência, remover carbono da atmosfera e apoiar a subsistência das comunidades. Precisamos de acelerar esta e outras transformações com ações coordenadas entre governos, empresas e sociedade civil”, afirma Alice Fonseca, Climate & Policy Officer da WWF Portugal.

O relatório conclui que os pontos de não retorno exigem uma resposta global coordenada e inovadora, alertando que as políticas atuais não estão preparadas para lidar com fenómenos abruptos e irreversíveis. A aceleração da transição ecológica, o apoio à investigação e o envolvimento da sociedade civil são considerados essenciais para restaurar a estabilidade climática e garantir um futuro sustentável.

OC/RPC