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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Mulheres na Música (Parte 8) – Hildegarda de Bingen : Sibila do Reno

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Foi uma das figuras mais importantes do século XII, embora só fosse reconhecida pela igreja, no ano de 1584, pelo Papa Gregório XIII que a incluiu no Martirológio Romano como Santa. O Papa Bento XVI reafirmou oficialmente a sua santidade e a proclamou Doutora da Igreja, numa carta apostólica a 07 de Outubro de 2012.

A originalidade e o vulto da sua obra musical, estão de igual modo equiparadas às suas atividades como Teóloga, Pregadora, Poetisa e na área da medicina, onde a descoberta e a compilação de diferentes plantas medicinais, ofereceu métodos de tratamento para diferentes doenças. Daí, alguns dos seus biógrafos a mencionarem como Santa e lhe atribuírem vários milagres, tanto em vida, como após a sua morte.

O seu nome, também conhecido como Sibila de Reno, está ligado ao Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha, onde foi Mestra do mesmo.

Curiosamente, não se consegue encontrar paralelo entre figuras masculinas do seu tempo, tal a sua capacidade de investigação e conceção mística integrada do
Universo. No sua forma de pensar, deveria haver uma união harmoniosa entre corpo e espírito, entre vontade, natureza e graça divina.

Sempre fiel à ortodoxia do Catolicismo, combateu as heresias e a corrupção do clero na sua época.

A música de Hildegarda, muito influenciada pelo Canto Gregoriano (música essencialmente cantada por homens), é inteiramente monódica e melódica, muito familiarizada pela técnica “Órganon”, um dos vários estilos de polifonia (várias vozes) medieval, primordial na Europa Ocidental entre os séculos IX e XII.

O seu estilo de melodismo incorpora elementos da vanguarda musical da sua época. A sua música modal (baseada nos modos da Grécia antiga), com principal destaque para o modo frígio e um desenvolvimento extraordinário de melismas (melodias apenas baseadas numa única sílaba), onde a sua expressividade, conseguiu utilizar até cinquenta notas sobre palavras particularmente importantes. Usando uma tessitura (o espaço musical entre a nota mais grave e a nota mais aguda) de duas oitavas e em alguns casos de três oitavas, exigindo uma alta capacidade vocal do seu intérprete, como o exemplo da sua peça “O Vos Angeli”.

A sua construção musical emprega regularmente a variação motívica, um fragmento musical reconhecível que aparece diversas vezes ao longo da peça. Embora a utilização de graus (notas) na música de então, fosse de pequenos saltos melódicos, os seus intervalos de quintas ascendentes (exemplo: de dó a sol), fossem a sua marca composicional. Existem algumas provas que tenha utilizado instrumentos musicais acessórios, nas suas partituras,
infelizmente não existem quaisquer notações instrumentais, restando apenas as anotações vocais.

A sua produção musical está patente nas suas obras: o auto “Ordo Virtrum” (Ordem das Virtudes), “Symphonia Armonie Celestium Revelattionum” (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestes) e nas setenta e sete canções para uso litúrgico (ou semi-litúrgico).

Completamente alheia aos dilemas morais de outros compositores sacros do seu tempo, a sua poesia era moralizante e pedagógica, alguma dela, inspirada nas suas inúmeras visões…

Embora o mundo de então fosse dominado pelos homens, Hildegarda criou composições para serem cantadas no feminino, assim como alusões à corporalidade da prática musical e segundo suas palavras: “as palavras simbolizam o corpo, e a música jubilosa revela as atividades do espírito; a harmonia celestial nos mostra Deus, e as palavras, a humanidade do Filho de Deus“.

Nesse sentido, segundo a análise de Bruce Holsinger, a música vivificava sua liturgia assim como a harmonia celeste vivificava o corpo de Cristo, e sugere que para ela o canto apontava para a imanência da vida espiritual dentro da carne e para a própria Encarnação Divina.

A sua música foi ignorada pelos historiadores, tendo em vista o seu estilo muito distinto das correntes principais da música medieval, mas recentes estudos têm enfatizado a originalidade da sua criação. Como comprova o disco de 1994 “The Music oF Hildegarda Von Bingen”, onde as suas melodias vocais cruzam com recursos eletrónicos. Esteve dezasseis semanas no topo da lista Billboard, na categoria de música clássica crossover e vendeu mais de 450.000 exemplares.

A maior homenagem prestada a Hildegarda foi, a de ter sido declarada santa pela Igreja Católica, mas a sociedade civil moderna também tem dedicado a ela outras formas de elogio. Na sua condição de Santa ela é honrada como padroeira da Igreja de Santa Hildegarda, o seu santuário mais importante, onde estão as suas relíquias e ainda na Abadia de Santa Hildegarda em Rüdesheim, e em mais oito capelas e igrejas na Alemanha.

Ela é a patrona do Prémio Hildegard von Bingen, criado em 1995 na Alemanha para distinguir jornalistas e publicitários que tenham dado uma contribuição humanitária importante no seu campo e promovido a pluralidade e o diálogo entre homens e mulheres. É ainda, nome de uma escola em Rüdesheim, sendo um dos vultos históricos relembrados no Templo de Walhalla em Ratisbona, e é patrona da Medalha Hildegard von Bingen da Bundesvereinigung Prävention un Gesundheitförderung, para personalidades destacadas no campo da educação sanitária mundial.

A sua vida foi objeto de um filme de Margarethe Von Trotta, intitulado “Vision – Aus dem Leben der Hildegard von Bingen”, lançado em 2009. Já existem duas sociedades internacionais dedicadas ao estudo da sua vida e obra, a Internationale Gesellschaft Hildegard von Bingen, fundada na Suíça em 1980, organizando grupos de trabalho, conferências, publicando uma revista, e contando com cerca de 1.800 membros de vários países do mundo, e a International Society of Hildegard von Bingen Studies, sediada desde 1983 nos Estados Unidos, também desenvolvendo uma atividade intensa.

Fiquemos com as suas palavras:

…a música de júbilo suaviza os corações endurecidos, e lhes extrai as lágrimas de compunção, invocando o Espírito Santo… e as canções atravessam (os corações) de modo
que eles possam compreender a Palavra perfeitamente; pois a graça divina assim age, banindo toda escuridão, e tornando luminosas todas as coisas que são obscuras para os sentidos corpóreos por causa da fraqueza da carne”.

“Na música se pode ouvir o som da paixão que arde no peito de uma virgem. Podemos ouvir o botão se tornando flor. Podemos ouvir o fulgor da luz espiritual brilhando do céu. Podemos ouvir a profundidade do pensamento dos profetas. Podemos ouvir a sabedoria dos apóstolos se espalhando pelo mundo inteiro. Podemos ouvir o sangue a pingar das chagas dos mártires. Podemos ouvir os mais íntimos movimentos do coração que caminha para a santidade. Podemos ouvir a alegria de uma menina diante da beleza da terra de Deus. Na música a criação devolve para seu Criador seu júbilo e sua exultação; e dá graças por sua própria existência. Também podemos ouvir na música a harmonia entre pessoas que antes eram inimigos e agora são amigos. A música expressa a unidade do mundo como ela era no princípio, a unidade que é restaurada através da penitência e da reconciliação”.

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