Muda a Hora e…mudaram-se os tempos… – Por Alberto Jorge Santos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía
Luís de Camões
A mudança de hora apanhou-me a ler Camões; quer a Lírica quer “Os Lusíadas” , fazem parte da lista dos meus “livros de cabeceira” . Estava a saborear a lírica, o que faço quando a insónia traz colada aos dedos e à alma, os pensamentos negativos e fui presenteado pelo destino com este soneto. De que gosto muito.
Ficou mais conhecido da população, após a brilhante adaptação de José Mário Branco. Que lhe deu uma conclusão que serviria de aviso a todos “ …e se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança.”
Ou seja, ainda iríamos a tempo de evitar o “doce canto em choro”, fenómeno poético irreversível. E que José Mário Branco propunha evitar. Porque o pessimismo de Camões ficou bem vincado: “… do mal ficam as mágoas na lembrança/ do bem (se o houve), as saudades.”
E nestas tergiversões para enganar a insónia, tornou-se inexorável a passagem mental para os “tempo de hoje”. Mais concretamente, como “começámos” e como “estamos”. O “tempus fugit” (o tempo voa) renascentista cai-nos em cima como espada de Damôcles, numa voragem de mudança irreversível. E sempre para pior, como escreveu o poeta.
É dramático perceber que a generalidade dos cidadãos não confia nos políticos dos partidos. E, pior ainda, sentir que os menos informados, ou desonestamente informados, demonstrem um “sebastianismo” confrangedor. Só falta um cartaz gigante com a inscrição “salvador da Pátria, precisa-se”. É grave, muito grave, porque quando aparecem essas eminências pardas é para conduzirem um país à ditadura, a forma mais fácil de governar, pois assenta na repressão generalizada.
Há uma pressão gigantesca de oligarcas russos ( ou ex oligarcas) e imbecis aculturados nos Estados Unidos sobre as forças ultra-conservadoras e/ou populistas de extrema-direita, com a oferta de verbas enormes – as notícias vão aparecendo nos jornais livres da Europa – para que os governos do velho continente constituam um bloco extremista de direita.
Com a morte do comunismo – tanto afligiu a América ultraliberal – chegou a hora do populismo da extrema direita. “Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades.”
E estamos em abril! O mês que deu guarida à instauração da democracia em Portugal. Ainda existe a geração que teve a oportunidade de viver a “revolta dos capitães”, que mudou o tempo político e ideológico em Portugal. E daí até hoje, o mundo foi composto de mudanças. Essa geração vê hoje uma assustadora instabilidade. E uma vontade política de mudar para a intolerância, para a mordaça aos livres-pensadores, a destruição dos direitos essenciais, a extinção de uma sociedade plural e pacífica. Uma luta surda contra a liberdade responsável e de expressão. Um atropelo, sem memória, a direitos cívicos. “Continuamente vemos novidades/diferentes em tudo da esperança;”
“Outra mudança faz de mor espanto/ Que não se muda já como soía.”
Pois é. Lamentável . Mas temos de assumir as responsabilidades. Os “filhos “ e “netos” dos homens da revolução, no meu caso, “filho”, somos culpados também pelas mudanças péssimas ( as boas são uma saudade). Deixámos gente má, oportunista, tomar conta da política em Portugal. Não seria fácil, mas houve uma altura em que os puros arautos da solidariedade, do bem comum, da política do servir, deixaram os partidos democráticos à mercê de quem os quisesse tomar. Enfim, à deriva! E foram tomados por muitos corruptos e mal intencionados. O resultado está aí estampado.
Irreversível? Acredito que sim. E também acredito que as más páginas da História vão repetir-se. Os resistentes não embarcam em teorias da conspiração, nem deixam manipular-se pelas notícias falsas. Os jornalistas que conseguiram manter-se fiéis à profissão e resistir, vão envelhecendo, sentindo o cansaço de uma vida pressionada pelas más influências, começam a ser cada vez menos. E os que vão resistindo, já não têm “a força toda” e vão encostando, resignados e tristes, à reforma.
A conspiração despótica de imbecis sedentos de poder, a par com paranóicos, ignorantes e mentecaptos, avança em força, bandeiras bem desfraldadas ao vento, alguns braços esticados, rumam à nova tragédia da ignóbil e assassina ditadura. Como sempre, em nome da Pátria e de Deus. Como se um Deus bom e misericordioso concordasse com tal coisa!
Mudou a hora. Mais um passo. E agora, Zé Mário, já vamos tarde! Trocar-lhe as voltas? Muito difícil! Porque o dia já não é uma criança…