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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Manuela Pereira: “Sou apenas a mão que escreve e depois saio de cena”

Manuela Pereira, escritora-fantasma, é apaixonada pela escrita desde os 11 anos; licenciou-se em Humanidades, foi professora, jornalista de rádio e televisão, “bloguer”, publicou três livros próprios. Há já 12 anos, ininterruptamente, é mentora de escritores e “ghostwriter”.

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De todas as áreas das Letras é a de “escritora fantasma” que assume na plenitude?
Sim, identifico-me como “ghostwriter”, apesar de me considerar também escritora. No entanto, neste momento, e desde há 12 anos, que trabalho a tempo inteiro como “escritora -fantasma”.

Um trabalho que deve exigir um gosto imenso pela escrita.
Desde os 11 anos, quando recebi o meu primeiro diário para escrever, das mãos da minha madrinha; também comecei a ler “a sério” na biblioteca do meu avô, que estava repleta de obras.”
Também aos 11 anos?
Também. A biblioteca do meu avô era um lugar onde gostava  de me sentar no chão e olhar para os livros a tentar escolher o próximo. E lia tudo…”


Quando terminou a sua licenciatura, em Humanidades, o que desejava exercer?
A minha principal meta era o ensino, dar aulas, formar, partilhar conhecimento; todavia, devido à minha grande paixão pela comunicação, enveredei pelo jornalismo e, durante uma década, foi o que fiz, em rádio e televisão. Mas nunca deixei de escrever. Publiquei três livros em nome pessoal e redigi dezenas de artigos para jornais. E escrevia também num blogue que acabei por fechar.”


Para escrever os seus livros, teve mentor/a, teve ajuda?
“Não…penso que o facto de estar ligada às letras me serviu muito como estrutura e pilar. O curso preparou-me  bem ao dar-me possibilidades de conhecer por dentro e por fora os melhores escritores. Aliado a isso, o facto de ler e escrever bastante no meu dia-a-dia fez o resto. A escrita é um exercício, um treino. O tempo só a melhora.”

                                                                                            Escrever e contar


Escritora-fantasma é uma atividade tão curiosa quanto necessária. Há muita gente a recorrer?
“Cada vez mais. O conceito começa a ser conhecido. Quanto mais de falar desta profissão, mais pessoas poderão beneficiar dela porque o “ghostwriter” é a mão que escreve de quem, por falta de tempo ou incapacidade técnica e criativa, não consegue lá chegar. Mas tem uma ideia fantástica para dar alma.”


São mais os autores iniciantes ou também os que têm já alguma experiência?
“Ambos. Há os que não conseguem mesmo escrever (ou não querem!), mas possuem uma história pessoal ou ficcionada para narrar. Há pessoas com uma imaginação absolutamente fabulosa, mas deparam-se com a inexperiência. A única forma é contar ao “ghostwriter” e este ajuda a passar a ideia para o papel. Mas também os mais experientes, às vezes por falta de tempo ou até paciência para se dedicar a um livro. Porque escrever um livro exige disciplina.”


O que faz, concretamente, a “escritora-fantasma”?
“Escrevo a obra, seguindo os princípios que o autor/cliente pediu. Sigo as suas diretrizes. No fim, entrego-lhe a obra, que ele assina e saio de cena.”


Há quem considere o “escritor-fraude” a quem assina um livro sem o ter escrito. Tem a mesma opinião? Já escreveu um livro na totalidade para um “autor” assinar?
Escrever tudo para o autor assinar é o papel do “ghostwriter”. O “fantasma é isso. Entra e sai, sem deixar rasto. Essa questão da fraude ou falta de ética é um mito urbano. As pessoas têm de entender que o autor é o proprietário da ideia, da história, do enredo. Ele decide tudo. Ele controla o processo, passando as ideias ao pormenor. Como disse, sou apenas a mão que escreve.”


Tem uma margem muito curta de liberdade para criar…
“Claro, o autor/cliente não me dá a liberdade total. Eu obedeço a regras e não sou tão livre como pensam. Há uma ideia errada por parte de algumas pessoas. Já tive histórias nas mãos que eu, sozinha, não teria a capacidade de imaginação para dar sequência. Alguns desses clientes têm tantos pormenores na estrutura que é impressionante como conseguem ligar as personagens, cenário e estrutura.”

Contar e escrever são funções diferentes?
“São duas realidades distintas. Escrever exige capacidade de síntese, coordenação do raciocínio, memória infinita, organização, de tempo e informação. Contar é algo quase instintivo, espontâneo, sem a obrigação meticulosa dos factos. É simples recuperar o pensamento quando se conta uma história; quando a escrevemos, qualquer falha na estrutura da narrativa, implica colocar em risco partes da história ou o seu todo por falta de coerência.”


                                                                                            Poder



Há uma grande diferença entre mentora e “ghostwriter”?
“Há diferenças. O mentor é uma bússola. Um professor. Como mentora, oriento, ensino algumas técnicas, corrijo erros crassos. Também promovo a liberdade de expressão porque as pessoas têm medo das palavras. De as usar como se elas as enfraquecessem e é, precisamente, o contrário. Expor sentimentos e emoções é sempre o mais complexo para quem escreve. Em mentoria as pessoas aprendem a ver e a olhar para conseguir escrever. Este princípio é fundamental.


Recorrem muitas pessoas à mentoria?
“Já tive mais de 200 escritores/clientes a passar-me pelas mãos, sem contar com pequenos trabalhos de revisão ou apenas de consultoria.


E as editoras, não acha que lhes caberia dar mais apoio ao autor, uma vez que cobram – refiro-me a autores desconhecidos – pelo trabalho que prestam, às vezes muito duvidoso em qualidade?
“Os tempos editoriais mudaram. Há mais de uma década, as editoras apostavam em autores, mas quantos conseguiam editar uma obra? Poucos, muito poucos furavam o sistema, porque as editoras tinham de garantir que o autor as compensava. Não nos podemos esquecer que as editoras são empresas e como empresas necessitam de vender. Se todas apostassem em autores novos, estariam falidas. Há 10 anos, mesmo que eu quisesse pagar para editar, era raro conseguir furar o sistema. Era, literalmente, apenas para alguns, os escolhidos. Hoje, não há escolhidos. As editoras abriram as portas e dão oportunidades de edição. Porém, se o próprio autor não aposta nele, investindo na sua obra, porque é que uma editora terá de o fazer? Esta é a pergunta. Nos tempos que correm, ou os autores que começam provam ser merecedores de ser escolhidos por uma editora ou terão muitas dificuldades de crescer no meio. Os autores precisam de entender que o principal responsável pela sua obra não são as editoras, são eles, mas eles não querem essa responsabilidade e isso faz-me pensar.”



Mas há editoras que, só visando o lucro, deixam o autor abandonado….
“A máquina de marketing por detrás de uma editora funciona com obras em que elas investem. Mais uma vez repito, a editora precisa garantir a sua estabilidade financeira. A oportunidade que dão é que qualquer pessoa possa editar através da sua chancela e ter o livro distribuído a nível nacional (uma grande oportunidade, diga-se), a partir daqui, o autor tem de provar que vale o investimento. Conheço casos de autores que começaram, como todos começam, apostando na sua carreira e, hoje, têm contratos editoriais. Mas fizeram por isso. É impossível a qualquer editora arcar sozinha com os custos de edições de autores. Por dia, as editoras recebem dezenas de originais…”


A escrita é mesmo assim tão poderosa?
“É. Já Martin Luther disse: “Se queres mudar o mundo pega numa caneta e escreve”. Os livros mudam pessoas e pessoas mudam o mundo. As palavras possuem tanta força que, quando escritas, duram para sempre. Conhecemos a história do mundo porque alguém foi deixando coisas escritas. Basta pensar nisso para concluirmos sobre esse poder. As palavras escritas, lidas em silêncio, entranham-se e ressoam”


Hoje, há crise de leitores? Ainda vale a pena publicar livros em papel?
“Não há crise de leitores. As estatísticas mostram que o mercado do livro cresceu 16%.


Estamos mais na época dos audiolivros? Ainda não. Pelo menos, em Portugal, ainda não se verifica essa realidade e não acredito nela. Livros nunca serão substituídos. Não há nada que se compare ao cheiro, textura e cumplicidade de segurarmos um livro, sentados num jardim, numa sala ou num espaço acolhedor

 

 

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