Dizem-me, com a prudência de quem teme o espelho, que sou inconveniente. Acusam-me de uma polémica que, segundo as vozes do bom senso, poderia ferir-me o futuro. Pergunto-me, no entanto: quantos não se calam por trás de máscaras de vidro, albergando a mesma vontade de gritar, mas contidos pelo receio das consequências?
Nesta minha vida, já longa e de passos decididos, fui obrigado a deglutir o amargo de alguns sapos. Não foram muitos — a minha natureza sempre foi avessa a tal dieta. Hoje, a idade concede-me o privilégio da frontalidade. Não a ofensa gratuita, que é o recurso dos fracos, mas a palavra que desperta consciências adormecidas sob o manto do conforto.
Garanto-vos: não habito estas redes por vaidade, nem busco o assédio de quem não me conhece (a beleza, essa, nunca me visitou o rosto). Muito menos estou aqui para ser o fantoche do “politicamente correcto”. Recuso-me a mendigar o afecto de um clique, a falsidade de um “gosto” trocado como moeda de uma simpatia vazia.
O que faço é outra coisa. Ando por aqui para dar corpo e voz ao meu trabalho. Legitimamente, busco que o que produzo encontre o seu destino, sem que isso signifique um atentado à paz alheia. Afinal, o escritor que não deseja que as suas palavras voem até às mãos do leitor, ou não existe, ou habita o raro e isolado panteão dos altruístas absolutos. A esses, os meus parabéns; aos outros, a minha verdade.
Escrever é, para mim, uma paixão antiga, um fogo que se recusa a extinguir. Mesmo que o livro, amanhã, se torne apenas uma recordação — ideia que me dói no âmago — ele continua a ser o meu veículo. Em cada volume que envio, não segue apenas papel e tinta; segue um fragmento do meu ser. É aí que reside a fronteira entre a intenção do lucro e a emoção da entrega.
Bem-hajam todos vós, que me sustentam o passo nesta caminhada íngreme. O meu abraço estende-se a todos: aos que me aplaudem e, com igual estima, aos que de mim discordam. Se todos concordassem comigo, o mundo seria um lugar monótono e eu, certamente, um ser de uma surrealidade insustentável.

Escritor







