Mais foco no aluno: um desafio urgente – Por Clara Boavista

Nas últimas décadas, o mundo passou por profundas transformações em diversos níveis, e a educação não foi exceção. O cenário mudou significativamente ao longo do tempo, mas continuamos a ensinar como se pouco ou nada tivesse mudado.

Muitos professores ainda baseiam as suas práticas em métodos centrados no docente, mesmo que, por vezes, afirmem o contrário. Introduzem pequenas alterações na orientação pedagógica — como valorizar mais a participação dos alunos em sala de aula — mas raramente vão além disso, sentindo que cumpriram o seu dever com esse ligeiro ajuste.

É verdade que muitos se esforçam por mudar esta realidade, tentando implementar inovações. No entanto, por diversas razões, poucos conseguem fazê-lo de forma eficaz. Os professores estão cansados e desgastados e, embora trabalhem em excesso, o retorno efetivo desse esforço para o desenvolvimento educativo dos alunos continua a ser limitado. A questão está longe de estar resolvida.

Além disso, a atual estrutura organizacional das escolas públicas contribui para o afastamento do foco no Aluno como centro do processo de ensino-aprendizagem. Há uma centralização no Saber, que se torna o principal objetivo das ações docentes, frequentemente condicionadas por decretos e despachos ministeriais. Por consequência, resta pouco tempo útil para que os professores possam contribuir de forma significativa para o sucesso educativo dos alunos e para a construção dos seus projetos de vida.

É urgente inverter esta situação, pois a organização pedagógica vigente nas escolas públicas já não responde às necessidades dos nossos jovens, nem os prepara para a vida que ambicionam. É necessário reduzir a carga burocrática imposta aos professores, sem, no entanto, comprometer a exigência do seu trabalho em prol do conhecimento e do sucesso de cada aluno, valorizando-o como sujeito ativo e central no processo educativo.

É também preciso mais tempo para dialogar com os estudantes, compreendê-los melhor e analisar as suas potencialidades e fragilidades. É igualmente importante conhecer melhor as suas famílias, para que possamos apoiá-las no desenvolvimento educativo dos filhos, promovendo a equidade e a justiça social. Só assim, com atenção e foco em todo o processo de ensino-aprendizagem, poderemos agir com eficácia e apoiar os alunos em momentos cruciais do seu desenvolvimento cognitivo e intelectual, em estreita parceria com as suas famílias.

E por que não nos apoiarmos nos pensamentos e nas obras de William Shakespeare (1564–1616) para refletir sobre a forma como ele criava personagens com profundidade psicológica, permitindo que os leitores ou espectadores se colocassem no lugar do outro — um princípio fundamental para uma educação humanista e centrada no Aluno?

Ainda estamos muito longe de alcançar os resultados almejados, apesar do empenho diário dos professores.