Mães, Doutoras e Primeiras-Damas: Quando o mérito é atropelado pelo ego

Tenho plena consciência de que nós, europeus, estamos a sofrer uma crise económica asfixiante a troco de nada, ou melhor, a troco do ego desmedido de dois líderes que decidiram incendiar a estabilidade global. Estamos perante duas negações absolutas do que deveria ser o serviço público: Netanyahu e Trump.
Ambos arrastaram o mundo para o conflito e para um abismo civilizacional, apenas para satisfazer interesses pessoais e narcisistas. Um manipula o destino de uma nação para, a todo o custo, fugir aos seus processos judiciais; o outro, numa alucinação messiânica, julga-se o novo Jesus Cristo da política. Como é possível que o eleitorado banalize de tal forma a função de quem nos dirige?
O que está a acontecer salta aos olhos de qualquer pessoa minimamente informada. É incompreensível como se continua a depositar o voto em figuras que se revelam aldrabões e ignorantes, pois sabemos que, no fim, o bom senso será sempre a primeira vítima. Por vezes, este mundo parece um autêntico “jardim de infância” sem supervisão, onde tudo o que se passa seria óbvio para qualquer pessoa com um pingo de inteligência. Ainda não sabemos como acabará a tenebrosa “trapalhada Epstein”, mas há factos que convém sublinhar: Biden e Obama nunca constaram nesses registos de promiscuidade. Ao contrário de Melania, as suas mulheres, Michelle Obama e Jill Biden, trilharam percursos de mérito académico e social reconhecidos, mundialmente.
Michelle, uma advogada brilhante formada em Princeton; Jil, doutorada em Educação (muitas vezes confundida com a área jurídica devido ao rigor académico) e professora dedicada, inclusive no apoio a jovens em hospitais psiquiátricos. Estão a anos-luz de Melania Trump, cujo percurso é tão opaco quanto o seu papel como Primeira Dama foi irrelevante. É bizarro e vergonhoso comparar duas mães de família, trabalhadoras e licenciadas com distinção, a uma figura que personifica o vazio de conteúdo. O nível de política que Trump exporta é, literalmente, nauseabundo. Continua a elevar a fasquia da vergonha norte-americana, mas o mais curioso — e trágico — é este novo modelo de liderança: quanto mais abomina a decência, mais é aplaudido. É um culto alimentado pela raiva de quem se sente um “zé-ninguém” e projeta as suas frustrações num falso profeta. Se dás troco a um idiota, corres o risco de ficar igual a ele.
Esta degradação do debate público transformou a democracia num espetáculo de entretenimento barato, onde o “gritar mais alto” substitui a competência. A Europa, presa a este tabuleiro geopolítico, paga a fatura da energia, da inflação e da instabilidade militar, enquanto assiste impotente a este circo. A falta de escrúpulos destes líderes não é apenas uma falha de caráter; é um atentado direto à segurança e ao bolso de todos nós. Enquanto o voto for usado como uma arma de vingança pessoal e não como uma ferramenta de gestão racional, continuaremos reféns de quem prefere ver o mundo arder a sentar-se no banco dos réus. A história não será meiga para com estes tempos, nem para com aqueles que, por omissão ou fanatismo, permitiram que a imbecilidade se tornasse a norma.
