Lisboa metida “noutros carnavais”

A XIV Cimeira Luso-Brasileira decorreu em Brasília no dia 19 de fevereiro de 2025 e, certamente, se perguntássemos ao comum cidadão de ambos os lados do Atlântico se recorda o acontecimento, a resposta da grande maioria seria não.
Sejamos sinceros: não são propriamente acontecimentos marcantes que mereçam ser recordados para a posteridade. Mas perante a indiferença geral, um grupo de cidadãos aguardava esse evento com particular expectativa: a comunidade de imigrantes brasileiros de Lisboa e respetiva área metropolitana. Motivo? A realização do Carnaval brasileiro de rua de Lisboa. Afinal, as notícias davam conta de que o assunto iria ser abordado ao mais alto nível durante a cimeira!
A comunidade brasileira é a mais numerosa comunidade estrangeira em Portugal. Os dados mais recentes apontam para um número superior a 500 mil pessoas, que na sua maioria residem na área metropolitana da capital. São centenas de milhares de pessoas formando uma comunidade que, como também acontece com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, promove as suas manifestações culturais no país, e na cidade de acolhimento. O desejo de comemorar uma data tão relevante no Brasil acaba assim por ser natural, mas começou mal. Recuando até ao ano de 2020, uma celebração carnavalesca espontânea no lisboeta Cais do Sodré, ou como dizem os alfacinhas, “Caixodré”, acabou com uma musculada intervenção policial perante a ocupação ilegal de via pública.
Desde então, o evento tem ficado adormecido mas não morto. Alguns grupos têm participado nos pequenos desfiles que algumas juntas de freguesia promovem com as crianças das escolas, entre outros pequenos eventos de pouca visibilidade, que não parecem satisfazer quem anseia por mais. Outras comunidades têm promovido na capital do país eventos marcantes para a sua identidade.
O Ano Novo Chinês tem sido comemorado na zona da Alameda D. Afonso Henriques. Mais recentemente, a comunidade anglo-saxónica tem descido a Avenida da Liberdade para assinalar o Dia de S. Patrício. Por que não faz o mesmo a comunidade brasileira? A resposta tem razões económicas. Mesmo que a edilidade lisboeta isente a organização de taxas camarárias e outras despesas, há sempre custos inerentes com o policiamento, limpeza, WCs portáteis, seguros entre muitos eteceteras, perfazendo uns milhares de Euros que os blocos de carnaval de Lisboa (sim, existem e reúnem-se sob a sigla UBCL – União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa), simplesmente não podem suportar.
Mas regressemos à cimeira que para quem a aguardava com expetativa acabou por ser uma semi-deceção. O tema foi abordado pelos governantes brasileiros, mas a delegação portuguesa chutou para canto, ou como dizem os brasileiros, “para escanteio”: o assunto
dizia respeito a Lisboa e não ao país.
Articularam-se contactos entre a embaixada do Brasil e a Câmara Municipal de Lisboa, foi firmado um protocolo entre as duas entidades e ficámos a aguardar notícias. Ou melhor, não ficámos, já que os lisboetas ignoraram olimpicamente toda a temática (já lá vamos…).
Entretanto, Lisboa esteve metida noutros Carnavais. Eleições autárquicas e, principalmente, um trágico acidente envolvendo um ícone da cidade, deixaram a capital em lágrimas. A realização do evento, ao que parece, de extrema importância para a maior comunidade estrangeira a viver no país, não terá constituído propriamente uma prioridade.
Mas a coisa vai mesmo para a frente! Se, no início do ano, se dava conta que a tal falta de prioridade camarária para o evento estava a preocupar os seus promotores, pouco depois começaram a surgir notícias de que o Carnaval brasileiro de rua de Lisboa vai mesmo ter lugar, com desfiles em algumas freguesias da capital, entre os dias 13 e 17 de fevereiro!
Quanto custará aos cofres da cidade, será algo que se há-de saber a seu tempo. E os lisboetas? É chegada a altura de tornar esta discrição de eventos um pouco mais pessoal e falar como lisboeta. Sim, existimos! Por muito que se promova a ideia de que Lisboa é uma cidade de partidas e chegadas, de convivências seculares de diferentes culturas, tornando o lisboeta um indivíduo com uma espécie de identidade fluída, acreditem no que vos digo: não é verdade.
Existimos, somos muitos, e não temos um carnaval na cidade porque… Não queremos. É verdade, a já referida e histórica pouca visibilidade de eventos carnavalescos na capital do país tem uma razão de ser: o lisboeta. Não que exista qualquer repulsa para com o evento. Mas acreditem que já temos eventos e festividades a mais! Grandes eventos e festivais de música, concertos diversos ou manifestações por parte de tudo o que é grupo profissional entopem frequentemente a cidade. Como se já não bastasse, à presença frequente do Benfica na Champions League veio recentemente juntar-se o Sporting, duplicando o número de vezes que a célebre 2ª circular está entupida e congestiona o resto da cidade.
Fala-se da macrocefalia de Lisboa, mas acreditem neste vosso concidadão: em muitas ocasiões não é positiva e não é fácil ser lisboeta… Com tanto evento que causa disrupção na vida do lisboeta, o carnaval e a tolerância de ponto associada ao mesmo, tornaram-se assim numa agradável pausa. Quem gosta de o comemorar, viaja alguns quilómetros para norte ou para sul, dirigindo-se a Torres Vedras ou a Sesimbra, numa tradição antiga que favorece a economia dessas localidades. Quem não gosta, aproveita para descansar.
Face a tudo o que ficou descrito, o resultado é uma espécie de antagonismo entre decisões políticas que pretendem promover, e bem, uma convivência multicultural na cidade com a integração da comunidade brasileira através da visibilidade performativa nas ruas, e os lisboetas que nunca deram grande importância ao evento, num “não querer saber” que foi fazendo parte do que é a identidade da cidade.
Numa altura em que forças politicas sinistras se levantam um pouco por todo o mundo, aproveitando-se da democracia para expandir a sua influência nefasta, este aparente pouco importante assunto acaba assim por levantar algumas questões pertinentes, que se poderão sumarizar na seguinte: a desejável promoção de ações de integração de comunidades imigrantes não deveria levar em linha de conta o sentir da população de acolhimento?
Recorrendo ao bom e velho bom-senso a resposta óbvia seria um sim. Mas a política tem razões que a razão desconhece. Para já, nas redes sociais, as reacções às notícias sobre o evento não auguram nada de bom, e o aproveitamento por parte de certas forças mais extremistas parece notório. O protocolo entre a Câmara de Lisboa e a Embaixada do Brasil tem a duração de dois anos.
Talvez fosse boa ideia no final do mesmo analisar o que correu bem e menos bem. E, principalmente, não fazer de conta que os lisboetas não existem.