Liberdade vigiada (com a delicadeza de um “clipping moderno”)

Há uma elegância particular nas técnicas contemporâneas para exercer o controlo: mas que não se apresentam como tal. Preferem um léxico mais neutro, sob a aparência técnica, é a tranquilidade das palavras que não ferem. “Clipping moderno”, é um exemplo. Quase que soa a progresso. Quase…

A ferramenta NewsWhip entra neste cenário como quem não quer nada, quase “ingénua”: mede, organiza, e analisa. Tudo dentro do razoável. Tudo muito justificável. Afinal, quem pode ser contra uma organização da informação? Quem terá legitimidade para levantar suspeitas sobre uma tecnologia que apenas “acompanha tendências”?
O grande problema é este, quando o poder decide acompanhar as tendências, raramente ou nunca se fica por aí.
Catalogar jornalistas. Identificar os “mais influentes”. Perceber quem tem mais presença nos momentos de crise. Tudo isto pode ser apresentado como mera análise. Mas também pode ser entendido como aquilo que é efetivamente : um esquema ou um diagrama do espaço crítico. Uma cartografia de quem fala — e de quem pode vir a ser inconveniente.
Não digo que seja perigoso.
Digo que é conveniente.
Útil, e muito, para quem governa e pretende antes de tudo conhecer o terreno antes de pisar nele. Pertinente para antecipar as vozes, medir os impactos, talvez até ajustar os discursos. Tudo isto sem nunca beliscar diretamente a liberdade de imprensa. Porque já não é necessário.
A sofisticação está precisamente aí.
Não se pretende calar ninguém. Não se pretende proibir nada. Não há cortes, nem uma censura visível. Há apenas um sistema que observa, regista e organiza. E isso basta. Porque a liberdade não desaparece apenas quando é retirada — também se dissolve quando começa a ser observada de forma sistemática.
As reações de André Moz Caldas, Fabian Figueiredo e Luís Simões ajudam a compor o ramalhete, mas talvez fiquem aquém do essencial: não estamos só perante uma questão de transparência ou de explicações. Estamos perante uma mudança do paradigma.
A imprensa deixa de ser um espaço imprevisível para passar a ser um território analisado. Estudado. E Potencialmente antecipado. Ou Seja, Domesticado.
E quando o poder começa a antecipar a crítica, a crítica perde parte da sua força.
Mas claro — tudo isto é feito em nome da modernização. Em nome da eficiência. Em nome da necessidade de compreender melhor o espaço público. As palavras certas, no tom certo, com a dose certa de ambiguidade.
É assim que as coisas avançam.
Sem ruído. Sem choque. Sem escândalos imediatos. Tudo na surdina, apenas com pequenos ajustamentos que, somados, reconfiguram o que anteriormente parecia intocável, a LIBERDADE DE IMPRENSA.
A liberdade de imprensa não vai desaparecer de um dia para o outro. Vai sendo redesenhada — lentamente — até que chega um dia e percebemos que continua a existir, mas já não é a mesma.
Não é perigoso.
É mais eficaz do que isso.
E no fim disto tudo, ainda há quem bata palmas — porque foi tudo feito com jeitinho, com palavras mansas e relatórios bem alinhados. No fundo, é o velho truque com um fato novo: ninguém tira nada a ninguém, mas também já ninguém diz o que quer sem sentir o peso do olhar em cima. E isto torna-se ainda mais grave quando falamos da mais democrática de todas as liberdades: a liberdade de imprensa — precisamente aquela que devia existir sem mapa, sem guia, sem vigilância.
Aqui, pelo Porto, já se conhece a cantiga há muito: “com papas e bolos se enganam os tolos”. E a verdade é que isto não é sobre proibir — é sobre amansar. Vai-se afinando o espaço, aparando as arestas, até que a liberdade, essa, continua lá… mas só para inglês ver. Porque quando se chega a este ponto, já não é preciso mandar calar — basta que cada um aprenda, sozinho, até onde pode ir.