“Liberdade e independência é o melhor que uma mulher pode ter”

Foi quase no cimo daquela escadaria medieva, pleno coração da cidade, onde encontrámos Rosa Jorge. Num final de manhã quente e húmido, o sorriso aberto com que nos recebeu, ajudou a esquecer, por meia hora, canícula e cansaço. Uma mulher determinada e muito satisfeita com o trabalho que leva a cabo há já quatro anos.
Aqui nos Guindais, a maior dificuldade é a numeração das casas, que não é seguida. Por exemplo, estamos à beira do 23 e ao lado está o 12. Exige muita atenção.”
E o cansaço, não conta como dificuldade?
Sim, é cansativo. É subir e descer. Mas o mais importante é estarmos atentos para não errarmos o serviço.”
O seu dia de trabalho começa às sete horas, em Baguim do Monte, onde agora reside.
Vou buscar as cartas, organizo-as por ruas e por números e apanho o autocarro para a “baixa”. E entre as três e meia da tarde, quatro horas, tenho tudo entregue. Almoço em meia hora, umas vezes num restaurante, outras vezes trago lanche e é assim o meu dia de trabalho. Esta rota, dos Guindais, é a mais cansativa de todas e a que demora mais tempo a fazer.”
Quando decidiu enveredar por esta profissão, houve quem não augurasse uma permanência longa; tem um problema físico, supostamente, inibidor de bom desempenho.
A minha irmã e eu somos gémeas. Nasci com o pé colado à cabeça dela. Fiz três operações e fiquei bem. Ela também. Quando comecei neste trabalho, não senti que o pé prejudicasse. Gosto do trabalho que faço. Não trocava. Gosto muito da liberdade. Fui assim toda a vida. Acho que independência e liberdade é o melhor que uma mulher pode ter.”
E oportunidades para mudar de emprego não lhe têm faltado. Até porque, a sua formação é noutra área e bem diferente.
“A minha formação é pedicure-manicure. Comecei aos 18 anos no salão de cabeleireira da minha irmã. Ela já me pediu várias vezes para voltar, mas eu prefiro o que faço. Já fiz carteiras, já andei nas limpezas, trabalhei num hotel. E criei cinco filhos -três raparigas e dois rapazes- já quase todos com a vida organizada. E tenho três netos.”

Foto:António Proença

                                                                                      Tempos Livres

Uma mulher sempre ocupada. A necessidade e o gosto pelo trabalho ocupam partes iguais na sua vida. Quando lhe falamos de tempos livres, responde-nos com trabalho.
“Quando termino aqui o trabalho tenho sempre uma vizinha ou outra a pedir-me para lhe fazer uma limpeza em casa. Outras vezes, para arranjar as unhas. Vou muito a Miragaia arranjar unhas. Se for lá e perguntar pela Rosinha, todos me conhecem”
E um tempinho livre…
“Se tiver um tempinho livre, vou à praia. Apanho o autocarro, gosto de andar nos transportes públicos e vou até Matosinhos. Aos fins-de-semana, se tiver tempo vou a Lavadores, à praia, com a minha irmã. Mas eu gosto de trabalhar, só peço a Deus que me dê sempre força. Não faço do trabalho uma dor de cabeça. Problema é ter doenças que nos incapacitem, isso é que é mau, o resto…”
Quanto às pessoas com quem contata, e são muitas, pouco tem a dizer. Mesmo assim, prefere a gente humilde dos Guindais à dos prédios.
“Gente boa, aqui nos Guindais. Mas eu dou-me bem com toda a gente. Todos nós temos três lados, o bom, o mau e o mais-ou-menos . É claro, quando me “salta a tampa”, o que é raro, também não deixo nada por dizer. Mas evito ser malcriada.
Uma vez ou outra, lá surge um momento menos bom. O que é perfeitamente normal. Mas Rosa Jorge tem habilidade e maturidade suficientes para saber “sair” de forma positiva.
Por exemplo, um dia destes, a fazer a rota, estava muito calor, cheguei à Rua de Sá da Bandeira extremamente cansada. Entrei num Pronto-a-Vestir e pousei as cartas no balcão com mais força do que o habitual. E essa pancada fez eco. O que, pelos vistos, incomodou a dona do estabelecimento. Não entendeu o meu cansaço e disse que eu era malcriada a atirar assim as cartas para cima da mesa. Já tinha distribuído, naquele dia, mil e tal cartas. Eu disse-lhe que estava tão cansada que nem me apetecia discutir. Há pessoas assim, que não entendem os outros.”

Foto: António Proença

                                                                                             João Pinto

Rosa Jorge nasceu no “Cerco do Porto”, mas foi criada no Bairro do Falcão.
“Foi o meu pai que inaugurou o Bairro do Falcão. Até lhe deu o nome.”
Por aí ter sido criada, teve um vizinho que, estavam todos longe de imaginar naquela época, veio a tornar-se muito famoso.
“Os primeiros três moradores do Bairro do Falcão foram o meu pai, o avô dos “Santamaria” e o avô do João Pinto, o do Boavista e do Benfica. Eu ainda ajudei a criar o João. O apelido dele era “velhote” e foi o meu pai quem lho pôs. O meu pai era uma pessoa muito divertida e gostava de andar a falar com a “canalha”. E dava-lhes apelidos. Como ao João Pinto, em miúdo, caíram-lhe os dentes todos, o meu pai chamava-lhe “velhote”. Ele não gostava, ficava zangado e, lá de baixo, do Bairro, fartava-se de o insultar “– conta-nos entre sorrisos.
Assim é a força de uma mulher do Porto. Entre 700 e mil cartas distribuídas por dia e muitos quilómetros nas pernas num constante sobe e desce, tem tempo para os afetos e sorrisos. Contrariamente a muitos, adora os turistas e a confusão das ruas. E, às vezes, para trocar as voltas às amarguras – mais uma hora de trabalho quando a distribuição não está completa às três e meia da tarde. Faça chuva ou faça sol.