Lei do Trabalho versus Lei da Adopção

A propósito da proposta da Lei do Trabalho (Pacote Laboral) não conseguir consenso entre as partes envolvidas, e o governo decidir levá-la, mesmo assim, à votação na Assembleia da República (AR), lembrei-me de um caso idêntico ocorrido em Fevereiro de 2016.
Nessa ocasião, para assinalar a aprovação da lei que permite a adopção de crianças por parte de parelhas do mesmo sexo (eu prefiro usar o termo “parelhas” em vez de “casais”, porque “um casal” implica dois indivíduos de sexo diferente: um macho e uma fêmea. O termo “parelha” designa “um par”… neste caso, “um par de pessoas”… que é o que realmente é, e não um casal!), o Bloco de Esquerda (BE) criou um cartaz que gerou controvérsia, representando, em desenho, a figura de Jesus Cristo com a frase “Jesus também tinha 2 pais”. Esta mensagem, sob o ponto de vista histórico, científico e filosófico, é imaculada… não ofende ninguém e sublinha o que as religiões cristãs afirmam: Jesus é filho de Deus, e José é o seu pai adoptivo! Logo, tendo um pai adoptivo, não resta dúvida de que JC contava com dois pais… o adoptivo… e o outro!
(Aqui, “o outro”, pretende-se que seja o pai biológico. Mas nesta estória de fé cristã, a Biologia não está presente… e aquilo não se entende… é uma confusão em que entra a figura de uma pombinha como portadora do esperma divino que depositou no ovário de Maria… o que dificulta a compreensão do acto!… Os crentes afirmam esta “narrativa de fé” como realidade, mas garanto que não a entendem… e esta falta de entendimento dá uma mãozinha à habitual atitude de fé que é, sempre, explorada por quem se governa à custa da crença dos outros).
A aprovação da Lei da Adopção foi confirmada na AR no dia 10 de Fevereiro, por uma maioria de Esquerda, depois de Cavaco Silva (então presidente da República) a ter vetado. O mesmo risco corre, agora, a Lei Laboral, ao poder ser aprovada sem aceitação dos trabalhadores, como a outra o foi sem a aceitação da Igreja, dos seus fiéis e dos partidos políticos de Direita!…
Mas aqui sobra uma diferença abissal!… A “Lei da Adopção” interessava a uma minoria… ao contrário da “Lei Laboral” que regula o Trabalho em cada centímetro quadrado do país, e a totalidade dos portugueses deve-lhe obediência. Sendo aprovada pelos votos da maioria de Direita, entre os quais há quem odeie a palavra “trabalhador”, ria da palavra “sindicato” e espezinhe cravos vermelhos nesta data histórica de Portugal e das Liberdades conquistadas há 52 anos, temos um retrocesso histórico que não lembraria ao diabo… mas que lembra ao Governo de Luís Montenegro que sobrevive encostado a uma extrema-Direita selvagem e ignorante, que odeia a memória da conquista da Liberdade pelos heroicos Militares de Abril e que está contra todos nós e contra a História.
Regressando ao passado, ao caso idêntico de aprovação em 2016, a lei aprovada no Parlamento fez Jus à política de Esquerda que então governava o país e que concordou com a lei da adopção de crianças por parelhas do mesmo sexo, bem como também concordava com o casamento homossexual por respeito à dignidade do Ser Humano. Dignidade que a Igreja defende na sua moral de púlpito… mas que não adopta nas suas acções concretas na realidade social do tempo em que vivemos.
Os trabalhadores ficam agora, 52 anos após o 25 de Abril, reféns de uma maioria de Direita que tem no seu seio quem queira rasgar tudo quanto se conseguiu pelo Movimento dos Capitães que nos devolveu a Liberdade e a Democracia… e não há coisa mais sagrada do que a Liberdade!