6.6 C
Porto
Quinta-feira, Maio 23, 2024

Killing me softly

As mais lidas

Sónia Aguiar
Sónia Aguiar
Advogada/Mestre em Direito

Não acredito em coincidências. Quando um evento se repete, ainda que sob diferentes formas, num curto espaço de tempo, é porque é suposto que eu preste atenção ao que lhe subjaz.

Assim aconteceu recentemente. Era o fim das férias escolares da Páscoa. Como é tradição, eu e o meu filho pré-adolescente fomos fazer um programa mãe e filho: almoço no shopping, cinema e pipocas, seguido de passeio no parque próximo. Enquanto nos aproximávamos do parque, apercebi-me de um jovem casal de namorados que discutia, ou melhor, a rapariga discutia enquanto o rapaz ouvia.

A dada a altura, ela dá uma bofetada no rosto do namorado e, ao aperceber-se de que eu apreciei toda a cena, coloca a sua melhor expressão de triunfo. O rapaz fiou pasmado a olhar para ela, sem reação.

Fiquei chocada. Escusado será dizer que dei nas orelhas do meu filho com um valente sermão, acerca da importância do amor próprio, do autorrespeito e da importância de sanear a vida de más companhias. Duvido que ele tenha percebido o alcance de metade do que ouviu, mas, seja como for, já ficou com as devidas referências.

Pela mesma altura, eu encontrava-me envolvida num julgamento pelo crime de violência doméstica em que o meu cliente era o arguido. No decorrer do julgamento e à medida que a prova se ia produzindo, fui percebendo que a história não era bem como estava a ser contada. Na verdade, aquele que aparecia pintado de agressor era, em bom abono da verdade, a verdadeira vítima de anos de violência psicológica e humilhações perpetradas pela alegada vítima, que fazia o papel da santinha de trazer por casa.

Poucos dias mais tarde, enquanto passava os olhos pelos jornais, deparei-me com uma notícia que dizia: “A homicida, Soraia, pediu um cigarro ao companheiro. Rui disse que não tinha e ela matou-o à facada.” (vide Correio da Manhã do dia 22-04-2024, pág. 16).
Era oficial: a minha curiosidade fora atiçada! Já não havia como fugir do assunto.

Fui ver o que as estatísticas tinham a dizer sobre o tema. O que vi no portal do Instituto Nacional de Estatística não me surpreendeu, mas também não me convenceu (vide https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0008154&contexto=pgi&selTab=tab10).
De acordo com esta entidade, em 2023, o número de “Agentes/ suspeitas/os identificadas/os em crimes de violência doméstica contra o cônjuge ou análogo registados pela PSP e GNR (N.º) por Sexo” era de 22 406 homens e 5 603 mulheres. Impossível!

Fui “Googlar” o tema. O que vi foi de pasmar: não há resultados de pesquisa relevantes para entidades e/ou artigos que versem sobre a violência exercida por mulheres.
Transcrevo aqui as sábias palavras de Zygmunt Bauman: “ Se não há uma boa solução para um dilema, se nenhuma medida aparentemente sensata e efetiva consegue fazer com que a saída pareça ao menos um pouco mais próxima, as pessoas tendem a comportar-se de modo irracional, aumentando o problema e tornando ainda menos plausível a sua resolução” (in “Amor liquido”, Zygmunt Bauman, Editora Relógio d’ Água, 2006, pág. 33).

Isto é verdade tanto para homens como para mulheres. Mulheres e homens são igualmente capazes de, sob stress, exercer violência. Por regra, o que muda é a forma como a agressividade é expressa: enquanto os homens são mais físicos, as mulheres tendem a ser mais verbais e mais capazes de exercer violência através do choro e da chantagem psicológica.

Por outro lado, as mulheres tendem a ser mais expeditas (por serem mais incentivadas a isso) quando toca de denunciar a violência de que são vítimas quando são vítimas. Já os homens, talvez por vergonha, tendem a ocultar a sua situação de vítimas e a denunciar menos.

Talvez não fosse de todo uma má ideia (e desde já fica aqui o desafio) que os homens se organizassem em associações ou de outras formas que encontrem mais convenientes, no sentido de incentivar a denúncia e dar apoio aos corajosos que erguem a voz (e não a mão nem a arma) contra a violência que lhes seja dirigida.

Afinal de contas, estamos no século XXI, a viver no país das maravilhas da Alice, num tempo onde homens casam com homens, mulheres com mulheres, as casas de banho e os balneários das escolas começam a ser mistos e o género é uma ideologia. Ser do sexo masculino não quer dizer que se tenha de suportar tudo por vergonha de beliscar a virilidade.

Lembrem-se que já o rei Salomão dizia que “Melhor é viver no deserto do que com uma mulher briguenta e amargurada.” (in Biblia Sagrada, Provérbios 21:19) e vejam que este homem teve 700 mulheres e mais de 300 concubinas, portanto, ele percebia do riscado e sabia do que falava.
Denunciem! Sem medos, sem vergonhas!


- Publicidade -spot_img

Mais artigos

- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img